Andoni Hernandez: "No Brasil, em geral, há um apetite maior pelo risco"

O advogado Andoni Hernandez, ex-Demarest e novo CEO da Howden no Brasil
O advogado Andoni Hernandez, ex-Demarest e novo CEO da Howden no Brasil
Após 30 anos dedicados a M&A, advogado espanhol virou presidente-executivo de empresa: "No Brasil, o advogado fica muito mais perto do dono e do CEO".
Fecha de publicación: 25/07/2022

O advogado espanhol Andoni Hernandez comemorou a chegada dos 50 anos com uma nova virada profissional. Depois de 30 anos dedicados a viabilizar fusões e aquisições (M&A) e de seis anos na liderança da prática ibero-americana do Demarest, Hernandez aceitou o desafio de virar presidente-executivo da Howden no Brasil e general counsel do grupo para América Latina.

O desafio como executivo foi a última etapa de uma carreira dedicada ao Direito Empresarial e a operações societárias de alta complexidade. Ao mesmo tempo, foi uma transição natural partir para o comando de uma empresa internacional em um mercado altamente regulado como o de seguros. 


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Isso porque Hernandez destaca que vê mais sinergias e semelhanças entre um broker global de seguros como a Howden e uma banca sofisticada de advocacia como a brasileira Demarest e a espanhola Cuatrecasas, onde também já foi sócio. 

Para além das sinergias, Hernandez destaca como o mercado brasileiro exige, e até favorece, que empresas sejam comandadas por executivos com capacidade de navegar os elevados riscos jurídicos do país.

"As empresas têm um nível alto de desafio de compliance no Brasil", explica Hernandez. 

Leia uma síntese da entrevista:  

O que motivou deixar de trabalhar em uma banca líder no Brasil para trabalhar em uma broker internacional de seguros?

Andoni Hernandez: O fator essencial foi deixar de ser um advisor para ser um senior manager, com desafio muito relevante pra fazer um projeto grande. Nem sempre aparece essa oportunidade. No mercado brasileiro são poucos sócios que saíram pra virar gestor em empresa. Não é tão comum assim. Embora nós, como advogados corporativos, fiquemos muito perto dos donos e managers de grandes negócios, não é tão comum ser apresentado a uma oportunidade dessa natureza. No meu caso, juntou tudo por ser um profissional que lidou com questões estratégicas pra empresa e ser alguém que já conhece bem o Brasil e a maneira de fazer negócios. Eu estou há basicamente 30 anos fazendo M&A e o grupo empresarial para o qual trabalho tem planos de expansão muito fortes, orgânico e inorgânico. É um plano de crescimento também através de aquisições. Meu perfil se encaixava bem, porque traz esse conhecimento muito bem aprofundado na prática empresarial, com o conhecimento do grupo e o conhecimento da região. Vim com o duplo chapéu: presidente-executivo e general counsel para toda a América Latina. Tanto para aquisição quanto para consolidação de operações que já foram adquiridas, quanto na parte de governança e compliance. 

O senhor vê mais peculiaridades de M&A no Brasil ou mais similaridades com outros países?

Hernandez: Talvez o apetite ao risco no Brasil seja maior do que em outros lugares. O Brasil é bem maduro em termos de operações e tem convergência grande com padrões internacionais. Claro que tem peculiaridades. Tem que conhecer a idiossincrasia das pessoas, como reagem. A maioria dos espanhóis saem das reuniões com brasileiros se questionando como custa ao brasileiro dizer não. Quando estava no Demarest rodeado de brasileiros, era engraçado aos brasileiros falarem quanto custa aos espanhóis entenderam um não. São dois lados da mesma moeda. Saber navegar essa ponte é fundamental. Do ponto de vista técnico, muitas regras de M&A são similares ao que você tem lá fora. Talvez tenha lá fora algumas práticas que não são tão comuns. Mas o mercado brasileiro é sofisticado e tende a seguir padrões internacionais. 

Quais são suas expectativas para o trabalho no mundo corporativo?

Hernandez: Fazemos um trabalho de assessoramento e identificação de riscos na Howden. E propomos soluções que o mercado de seguros têm para cobrir esses riscos. É um business de prestação de serviços profissionais qualificados. É um negócio paralelo ao escritório de advocacia. O funcionamento e a estrutura são parecidos. 

O Brasil é mais difícil ou mais fácil de prever riscos de responsabilização jurídica?
 

Hernandez: O Brasil claramente não é um lugar fácil. O Judiciário não é homogêneo. Esse risco-Brasil não é tão assegurável. É um risco que você tem que gerir. Todo lugar é difícil, mas o Brasil é difícil porque tem características que o fazem menos preditivo em algumas coisas. Então tem que ter apetite ao risco maior e flexibilidade maior para navegar no Brasil. Isso não significa que os Estados Unidos não seja um lugar difícil ou complexo pra fazer negócios, por exemplo. Abrir franquias nos EUA é um horror. Já abrir franquias no Brasil é bem mais simples. Tem que entender o jeito brasileiro da mesma maneira que tem que entender o jeito britânico. O que acontece muito comumente é que estrangeiros, fazendo negócios em qualquer lugar diferente do seu, chegam com muitas assunções, querendo fazer negócio como fazem no seu país de origem. Isso causa frustração normalmente. Você tem que escutar muito e falar menos. Esse é o segredo. 

Como avalia a evolução e o tamanho do mercado legal no Brasil e na América Latina?
 

Hernandez: O mercado legal sempre tem proporção com a economia obviamente. E o Brasil tem um potencial enorme, assim como a economia brasileira. A realidade atual é que o Brasil já representa 40% ou 45% do PIB da América Latina toda. Então nesse sentido o mercado legal brasileiro é um dos mais relevantes que têm na América Latina. Mas não é só no presente. O potencial pro futuro é muito maior. O Brasil deveria ter preponderância maior do que 40% ou 45% da América Latina. Se você me perguntar se tem espaço no Brasil para bancas crescerem, têm. Absolutamente, há espaço. 

Há desafios específicos que tornam mais importante ainda a visão de um advogado para a gestão de empresas?

Hernandez: Com certeza. No Brasil, em geral, há um apetite maior pelo risco. Ou seja, as empresas têm um nível alto de desafio de compliance. Pela complexidade da estrutura jurídica, pela falta de precedentes, pela falta de jurisprudência consolidada, pela variedade tão grande de pronunciamentos judiciais, as grandes companhias no Brasil têm um nível de riscos muito alto se comparado a outras jurisdições. No Brasil, qualquer negócio se divide em duas faces, que são igualmente importantes: o core business e a gestão de riscos. A gestão de riscos passa por compliance tributário, compliance trabalhista, regulatório. Essas variáveis se tornaram muito relevantes e sempre têm um impacto muito grande no resultado de operações. Com certeza, a visão de um advogado agrega, pois traz certa segurança, certo conforto. Na Espanha, por exemplo, o cara que é sempre o braço-direito do CEO (Chief Executive Officer) é o CFO (Chief Financial Officer), então o advogado é um cara que muitas vezes não é tão relevante dentro da própria organização. Aqui no Brasil é o contrário. O CFO nunca é tão relevante. É o advogado que fica muito mais perto do dono e do CEO, porque o nível de risco em geral das operações é muito grande. A necessidade de ter uma gestão desse risco é tão grande que normalmente o advogado tem um peso muito relevante na companhia. 


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Qual o peso do risco político nessa gestão de riscos?

Hernandez: O risco político você tem que conhecer e topar ou não topar. Você não tem a capacidade de mudar aquilo. É um pecado cair em riscos que eram predizíveis e você simplesmente não anteviu por não estar preparado. Outros riscos, sim, são mais gerenciáveis, como o risco tributário, o risco trabalhista, que são riscos altos no Brasil, mas, se você olhar pra média do mercado, muita gente faz errado, porque fazer compliance é difícil. O Brasil é um país previsível. Todo mundo fala com certa razão que no Brasil até o passado é incerto. Tem regras que mudam quando o governo faz nova lei, ou o Supremo Tribunal Federal reabre a interpretação. Mas também é verdade que tudo isso tem algum processo muito brasileiro, que isso não necessariamente causa impacto imediato na economia. Tem muito empresário brasileiro fazendo muito dinheiro no Brasil. Se fosse impossível, seria impossível pra todo mundo. E nem todo mundo é corrupto. O Brasil é um país que já provou que tem um regime de democracia bem sólida. Tem instituições que fazem o contrapeso. O Congresso no Brasil foi dominado pelo Centrão por toda a vida, mas tem a maneira dele de funcionar. É mais ou menos previsível. Tem um Judiciário que atua também como contrapeso do governo. Tem garantias do processo constitucional. Então, o Brasil é um entorno em que é previsível fazer negócios. 

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