O arquétipo do profissional jurídico

Os líderes fazem mudanças porque têm altos níveis de inteligência emocional e social. / Unsplash, Kira auf der Heide.
Os líderes fazem mudanças porque têm altos níveis de inteligência emocional e social. / Unsplash, Kira auf der Heide.
(In)competência (in)consciente, criação de hábitos, inteligência e liderança são os quatro pilares do arquétipo dos advogados.
Fecha de publicación: 30/05/2022

Para descrever o conjunto de atitudes e comportamentos que definem aqueles que pertencem a esta profissão, cunhei o termo arquétipo do profissional jurídico. Em meu livro Becoming a Lawyer: Discovering and Defining Your Professional Persona procuro descobrir e discutir essas atitudes e comportamentos, que são o fator determinante do sucesso na profissão e fora dela.

Na esteira da profunda disrupção que o setor jurídico vive no momento, tornou-se crucial desenvolver um forte arquétipo de profissionais jurídicos. 

Mudanças na profissão — como a concorrência acirrada pelos cargos mais cobiçados e certos tipos de clientes — tornaram ainda mais importante o desenvolvimento de um arquétipo robusto. 


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Características preliminares do arquétipo do profissional jurídico

Meu trabalho neste tema visa despertar o interesse no desenvolvimento de suas atitudes e comportamentos. Uma vez que entendemos a importância de criar um arquétipo profissional forte e nos tornamos mais conscientes das atitudes e comportamentos que nos marcam como profissionais, as dificuldades e as nuances misteriosas que cercam o processo desaparecem. 

Criar um arquétipo profissional é uma experiência verdadeiramente empoderadora. Em um mundo - e em uma profissão - onde muitas vezes nos sentimos impotentes, cultivar um arquétipo profissional está dentro do nosso domínio de controle. É também um processo constante e prolongado. O fato de podermos melhorar continuamente e nos tornarmos mais felizes ao longo de nossas vidas e carreiras é uma injeção revigorante. 

Os pilares do arquétipo do profissional jurídico

Identifiquei quatro pilares do nosso arquétipo profissional: (In)competência (in)consciente, criação de hábitos, inteligência e liderança

  • '(In)competência (in)consciente': refere-se à forma como aprendemos e nos desenvolvemos no mundo da aprendizagem. Algumas ferramentas básicas incluem a capacidade de se questionar ou desafiar a si mesmo, em vez de simplesmente supor que somos bons em alguma coisa ou que temos um talento especial para desenvolver uma habilidade específica; reflexão profunda, significativa e sustentada; observação e imitação, que nos permitem aproveitar as habilidades das pessoas talentosas com as quais interagimos diariamente; e a vontade de ser treinado. 
  • Hábitos, se são ruins, atrapalham nosso caminho para o sucesso, enquanto o desenvolvimento de hábitos positivos contribui consideravelmente para o fortalecimento do nosso arquétipo profissional. Hábitos fortes economizam tempo e energia mental que podemos usar para nos concentrar em outras questões mais específicas. O melhor de tudo é que ter bons hábitos estimula a criação de hábitos mais positivos. Isso torna este processo um excelente investimento de tempo e energia. 
  • Inteligência, esse conceito costuma evocar a noção de Quociente Intelectual (QI) que, por muitos anos, se acreditou ser o único fator que determinava o sucesso. Hoje entendemos que a inteligência é um conceito muito mais multidimensional e contextual do que pensávamos. Em particular, agora é amplamente conhecido que a inteligência emocional (a capacidade de entender e regular nossas próprias emoções) e a inteligência social (a capacidade de entender as emoções dos outros e responder adequadamente a elas) são ainda mais importantes do que ter um QI superior do que o mínimo exigido para concluir a faculdade de direito. Além disso, tanto a inteligência emocional quanto a social podem ser desenvolvidas, enquanto o QI é uma qualidade relativamente fixa. 
  • Liderança, Agora, ao contrário da crença popular, a liderança não está vinculada a uma posição: é a personificação de um certo modo de pensar e de uma atitude geral. As definições do termo liderança são abundantes, mas nem todos concordam que os líderes são visionários porque se concentram em alcançar resultados. Além disso, aqueles que lideram são agentes de mudança, pois têm a capacidade de tornar realidade as mudanças que buscam. Os líderes conseguem isso porque possuem altos níveis de inteligência emocional e social.

Autogestão: O profissionalismo internamente

A autogestão engloba a mentalidade e a vontade, a gestão do tempo; e o  bem-estar.

  • Mentalidade e vontade são propensões, atitudes, humores e inclinações que nos definem como pessoa e como profissionais. Dentro da mentalidade e vontade incluem a abordagem positiva, compromisso com a excelência e caráter de uma pessoa. Uma abordagem positiva é baseada no crescimento, determinação, resiliência, entusiasmo e curiosidade. O compromisso com a excelência abrange traços como desenvoltura, diligência, dedicação, autodisciplina, preparação, confiabilidade, adaptabilidade e sabedoria. Caráter envolve mostrar gratidão, ser digno, discreto, humilde, seguro de si, autêntico, elegante e ter senso de humor.
  • Gestão do tempo: Se compararmos como administramos nosso dinheiro com a forma como administramos nosso tempo, notamos que somos muito mais conscientes ao lidar com dinheiro. Devemos usar nosso tempo com mais consciência, pois é esse recurso — e não o dinheiro — o mais limitado e precioso de todos.
  • Bem-estar: Compreende várias dimensões – ocupacional, emocional, social, intelectual, física e espiritual – todas devem ser equilibradas para que o bem-estar seja possível. 

A preocupação com o bem-estar na profissão atingiu níveis críticos, agravados pela pandemia do COVID-19. Existem inúmeras razões para o baixo bem-estar dos advogados, e os resultados muitas vezes afetam severamente os indivíduos, suas famílias e as comunidades em que vivem. 

Além disso, nosso trabalho é afetado quando falhamos; existe uma forte correlação entre o bem-estar do profissional jurídico e sua capacidade, assim como entre o bem-estar e a retenção. A preocupação com a retenção é amplificada pelo contágio emocional dentro das organizações. 

Há muitas coisas que podemos fazer para melhorar nosso bem-estar: comer bem, ter períodos de descanso e rejuvenescimento, atividade física e interconexões pessoais, para citar alguns. Também podemos adotar uma mentalidade orientada para o bem-estar.

Relacionamentos: O profissionalismo externamente

Os relacionamentos definem nossa forma de trabalhar e como nos projetamos para o mundo, fator essencial para os profissionais do Direito. 

As regras básicas de trabalhar com outras pessoas abrangem conceitos óbvios como civilidade, colaboração e responsabilidade, bem como elementos mais sutis, como pensamento inclusivo e gerenciamento de nossos preconceitos implícitos e microagressões. 


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Estar positivamente disposto a ser supervisionado envolve aprender a servir de maneira altamente proativa, colaborativa, responsiva e adaptativa, e tem muito em comum com uma abordagem de serviço centrada no cliente. Na verdade, os profissionais jurídicos iniciantes (que geralmente têm pouca interação com os clientes) devem tratar seus superiores com a mesma abordagem de serviço que aplicam ao relacionamento com os clientes. Essa abordagem inclui a necessidade de ouvir ativamente, ser criativo na resolução de problemas e entender as implicações e consequências das decisões.

A retenção de talentos tornou-se uma verdadeira dor de cabeça para muitas firmas. Para reter e desenvolver talentos visando o engajamento de longo prazo, as firmas precisam adotar uma abordagem específica para gerenciar o desenvolvimento de talentos, e os supervisores devem considerar o treinamento e o desenvolvimento de talentos como parte integrante de todos os seus esforços.

As habilidades de comunicação são ferramentas essenciais para todo advogado. Saber escrever e falar de forma clara e concisa é fundamental, além de estar sempre informado sobre nosso público e nossos objetivos. As habilidades de comunicação também incluem a capacidade de ouvir de tal forma que a perspectiva do outro seja compreendida – algo comumente ignorado – prestando atenção às pistas verbais e não verbais da interação. 

Por fim, a forma como nos mostramos ao mundo como profissionais define quem somos. Seja por meio de nosso comportamento diário, nossas redes de contato, nossa participação em atividades sindicais ou civis, ou nossa presença nas redes sociais, nosso perfil profissional público revelará muito sobre nós mesmos. 

*Toni Jaeger-Fine é sócia principal da Jaeger-Fine Consulting. E-mail: tfine@fordham.edu

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