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O novo presidente certamente abraçará novamente o multilateralismo/ Twitter Biden
O novo presidente certamente abraçará novamente o multilateralismo/ Twitter Biden

Biden: O que esperar?

Com novo presidente americano, Brasil corre um sério risco de ficar ainda mais isolado na esfera internacional.
por Roberto Dumas*
publicado em12/11/2020

Começo já pedindo desculpas aos meus “milhões” de leitores, pois muitas vezes acabo carregando na tinta e escrevo textos um pouco ferinos. Prometo que irei maneirar, mas só depois deste. 

Com todo o respeito, ouso dizer que até mesmo o brasileiro de classe média-alta mal sabe dizer o que foi o Tratado de Tordesilhas e já sai desesperado fazendo campanha para este ou aquele presidente dos Estados Unidos. Defendem Donald Trump, pois acabam projetando a figura de macho alfa que peita tudo e todos, mas ao final se torna uma chacota dele mesmo. Defendem-no, pois acham que só assim lograríamos segurar o expansionismo chinês.

Isso. Brilhante! E com isso ainda flertamos com o veto da tecnologia 5G a ser eventualmente provida pela empresa chinesa Huawei aqui no Brasil. Noves fora, toda essa torcida pode acabar minando o único segmento que dá certo no Brasil, que é o nosso agronegócio. Mas como dizia meu saudoso pai: “mais vale um gosto”. Gosto amargo de arranjarmos rusgas com o nosso principal parceiro comercial, que pode, sim, transformar a vida das nossas empresas na China e dos frigoríficos aqui no Brasil, que exportam seus produtos para o gigante asiático num inferno. Mas sempre vale o gostinho de bater em alguém, mesmo que esse alguém é o que me estende a mão. 

Mas vamos às eleições dos EUA, sem repentes de projeções de masculinidade frágil. Biden venceu as eleições nos Estados Unidos. Lógico que muitos dos experts da terra tupiniquim, aqueles mesmos que já lacraram sobre tecnologia 5G, vacinas, Covid, etc., saíram gritando que a eleição foi uma fraude. Talvez - mas novamente ouso dizer que 99.99% daqueles que gritaram nas mídias sociais não conseguem levantar provas sobre tal acusação e muito menos explicar como funciona o sistema de eleição por delegados na terra do tio Sam. Tristes trópicos. 

Mas partindo da premissa de que não houve fraude, o que será que o novo presidente democrata dos EUA, Joe Biden, deve provocar de mudanças na esfera geopolítica, na economia e principalmente nas relações com o Brasil? 

Diferentemente de Donald Trump, é bem provável que Joe Biden abandonará sua visão negacionista das ciências, principalmente em relação à pandemia e ao processo de aquecimento global, este último voltando para o Acordo de Paris. Novamente, como antítese de Donald Trump, podemos dizer que o democrata eleito voltará a fazer parte da Organização Mundial do Comércio (OMC), que apesar de seus defeitos, não a deixará alijada com falta de juízes de apelação como o fez seu antecessor na Casa Branca. 

O novo presidente certamente abraçará novamente o multilateralismo, deixando o confronto solitário, abrindo flancos para países como a Rússia e a China abrirem novas zonas de influência no Noroeste da Síria, no Afeganistão e no Oriente Médio como um todo, pelo seu antecessor. Isso não quer dizer que os EUA tornarão a vida da China mais fácil. Longe disso.

Os democratas nunca questionaram a motivação de contenção da China, mas a estratégia atabalhoada de Trump. Biden já deixou bem claro que montará um plano de contenção do gigante chinês, através de uma coalisão de países, sem trocas de twitters nervosos, que acabavam caindo no esquecimento quando os chineses se prontificavam a comprar um punhado de soja dos EUA, acalmando Donald Trump, levando o a cantar vitória comercial sobre seu concorrente, usando e abusando de adjuntos adverbiais que fazem efeito em relatórios de equity research, mas não para um “estadista”. 

Biden será melhor para a economia global, pois voltará às conversações sobre tratados multilaterais e não apenas bilaterais. Achar que um país sempre se dará melhor produzindo tudo em casa e tributando tudo o que importa é profanar, sem direito a passagem ao purgatório, o conceito de vantagens comparativas das nações.

Desprezar a importância das cadeias de suprimento em nada favoreceria a economia global. Os mais afoitos já se apressariam a dizer que a nossa dependência para com a China, como um importante fornecedor, demostra a fraqueza dessas cadeias. Esse raciocínio é semelhante àquele que prende o carro por atropelar alguém e não o motorista inábil.

Ora, se a dependência por uma única nação levou o mundo a um tremendo choque de oferta pós-pandêmico, devemos então condenar a dependência por um único fornecedor e não o fornecedor em si. Novamente, “mais vale um gosto”. Que tal seria se países diversificassem suas cadeias de suprimento, deixando princípios tolos de que deveríamos produzir tudo em casa, como se nossas nações não estivessem sujeitas a pandemias, distúrbios civis, intempéries climáticas, terremotos, atos de terrorismos, etc?

Qualquer estudante de primeiro ano de finanças já sabe que depender todo o suprimento de uma fábrica de produção de um único fornecedor já é motivo de cessão total do vínculo do aluno com a universidade por inaptidão sem direito a recurso. 

Biden  certamente buscará restabelecer a confiança na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), que Trump tanto desprezou e a fragilizou junto aos seus principais aliados europeus (França e Alemanha), mas abraçando líderes populistas e ditatoriais como Vladmir Putin (Rússia), o líder da Coreia do Norte, Kim jong-un, e o líder da Hungria, Viktor Orbán, além de nutrir um nítido desprezo para com a União Europeia e o Japão, dividindo ainda mais o ocidente. 

Em relação ao Brasil, engana-se que a nossa política de governo e não de estado de aproximação entre Trump e a família do presidente trouxe algum benefício concreto para o Brasil. Justamente na semana em que ambas nações assinavam um contrato de facilitação de comércio, Trump lascava uma tarifa adicional de 135% em cima das nossas exportações de chapas de alumínio, isso sem falar do aço e do etanol.

Infelizmente, com Biden, o Brasil continuará a não ter o prestígio que a família do presidente do Brasil achava gozar junto aos EUA de Donald Trump. O novo democrata já apontou suas armas para o nosso país, exigindo uma agenda ambiental, ou “que aguentasse as consequências econômicas”.

Essa frase proferida diretamente a nós brasileiros, durante o único “debate” entre os candidatos à Casa Branca, soou como música para os nossos competidores do agronegócio da União Europeia. É de fato plausível que uma aliança entre os EUA e a União Europeia, demandando uma agenda ambiental em relação à Amazônia (falaciosa ou não) ocorra, fazendo com que nossas exportações possam sofrer um revés.

E, apesar das bravatas, não temos tanta pólvora assim por aqui para responder à altura, então seria recomendável continuar ou reformular a nossa política externa. Isso sem contar com o fato de que já abrimos trincheiras para enfrentar a China (nosso principal importador do agronegócio) em relação à tecnologia 5G da Huawei, como mencionado anteriormente. 

Enfim, parece que se o nosso país não tiver uma guinada de 180 graus em relação à nossa política externa e ambiental, ou que pelo menos a explique com mais calma, cérebro e menos vísceras, estaremos fadados a um maior isolacionismo nos próximos anos. Sim, pois EUA e União Europeia muito provavelmente se aliarão apara exigir respostas firmes, quanto a nossa agenda ambiental.

Já declaramos apoio à iniciativa “Clean Netowrk” (Rede Limpa), lançada pelo governo Trump, que no final das contas implica no banimento da Huawei no processo de licitação da tecnologia 5G, provavelmente em 2021. Do lado da América do Sul, já criamos atritos com o Paraguai, ao elogiarmos os feitos do ditador Alfredo Stroessner de 1954 a 1989, com o Chile, ao enaltecermos a ditadura do general Pinochet (1973-1990), atacando o pai da ex-presidente do país e alta-comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet.

Isso sem falar dos Hermanos argentinos, liderados pelo presidente Alberto Fernández. Independente do juízo de valor de cada um, todos nós já sabemos que países não tem amigos, mas interesses. 

Não abraçando essa máxima da diplomacia, o Brasil com Biden corre um sério risco de ficar ainda mais isolado na esfera internacional, se não promover um ajuste radical em principais cargos de seu governo. Vamos aguardar e não mais falar de pólvora.

*Roberto Dumas é economista e professor do Insper e do Ibmec.

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