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A cultura da firma é essencial para manter a coesão na parceria e no futuro das firmas / Pixabay
A cultura da firma é essencial para manter a coesão na parceria e no futuro das firmas / Pixabay

O modelo financeiro das firmas e a necessidade de revisá-lo nas crises econômicas

Os escritórios de advocacia têm grande rentabilidade para seus sócios, mas vivem em um equilíbrio instável e fatores com pouco espaço para ajustes.
por Miguel Ángel Pérez de la Manga Falcón*
publicado em17/08/2020

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A crise sanitária que estamos vivendo neste intenso ano de 2020 colocou à prova a força das costuras de todos os tipos de empresas. O fechamento para uns, a diminuição da atividade para outros e a crise de liquidez para quase todos tem chamado a atenção para a estrutura das organizações.

 

Os escritórios de advocacia, como as firmas de serviços profissionais, sempre apresentam diferenças de gestão em relação ao restante das empresas, incluindo esses tipos de situações. Essas diferenças são causadas pelo fato de serem organizações intensivas em capital humano, ao contrário de firmas intensivas em capital financeiro, e nas quais sua propriedade pertence a uma parte de seus trabalhadores - os sócios - cuja principal contribuição para a firma é o seu trabalho.

 

Para enfocar o assunto a ser desenvolvido neste artigo, outra característica deve ser adicionada: os sócios são proprietários da firma em caráter temporário e adquirem uma participação na empresa com o compromisso de deixar de serem proprietários em um período de anos acordado, deixando regulado tudo o que pode acontecer nesse intervalo.

 

Por fim, as firmas tendem a se descapitalizar uma vez por ano, coincidindo com a distribuição dos benefícios aos sócios. Lembremos que a principal contribuição dos sócios é o seu trabalho, o que eles o fazem de forma muito intensa, e para alcançar a estabilidade da parceria a rentabilidade desse trabalho deve ser boa. Caso contrário, os sócios podem buscar outras opções para capitalizar seu conhecimento durante os limitados anos em que tenham valor.

 

À primeira vista, organizar por meio de parcerias parece algo simples, mas na realidade é um conglomerado de equilíbrios frágeis que exige uma gestão contínua. Mas se eles até agora têm funcionado bem (lembre-se de que os escritórios de advocacia vêm se organizando dessa forma há muitos anos), por que deveriam se preocupar agora?

 

Ao longo dos anos, o mercado jurídico passou por mudanças lentas, mas contínuas. As principais são:

 

  • A tendência de serem organizações maiores, com mais profissionais, com mais sedes em diferentes jurisdições.
  • A complexidade das atribuições assumidas pelas firmas, que têm aumentado a exigência de formação e a intensidade da prática profissional (disponibilidade de tempo).
  • A mudança de mentalidade por parte das novas gerações sobre o modelo de negócio e a carreira profissional.
  • Aumento da necessidade de capital para responder ao crescimento e eficiência operacional (investimentos em tecnologia, por exemplo).

 

Os escritórios de advocacia têm poucas economias de escala (o custo principal de um escritório são seus profissionais e eles não são escaláveis), e o crescimento da quantidade de advogados, escritórios e sedes em diferentes jurisdições aumentam significativamente suas necessidades de capital.

 

Por outro lado, a rotatividade de profissionais ou a saída da firma após longos períodos de treinamento é muito cara quando se trata de profissionais altamente qualificados. A complexidade das atribuições e a disponibilidade total de tempo exigem salários muito altos para reter talentos.

 

Por fim, a mudança de mentalidade das novas gerações compromete o modelo de propriedade temporária que vimos que caracteriza as parcerias.

 

Modelo financeiro de parcerias

 

Os escritórios de advocacia têm exigências de capital para investimentos e para suas operações. Embora seja comum a possibilidade de recorrer a instrumentos financeiros de crédito, a maior parte dessas necessidades de financiamento são atendidas com as próprias operações da firma.

 

Embora a margem - lucro sobre as vendas - das firmas seja alta, comparada com as empresas de produtos ou serviços não profissionais, as mudanças que mencionei antes estão aumentando as necessidades de capital nas organizações maiores.

 

Uma crise de liquidez, como a vivida em 2007/09 ou a que começamos a sofrer em 2020, tem como primeiro efeito uma maior negociação de preços por parte dos clientes. A sofisticação dos compradores (advogados corporativos) e as tensões de liquidez sofridas por muitos setores de clientes levam a negociação ainda mais para a queda dos preços.

 

E é nesse ponto que se gera a tensão que queremos descrever neste artigo. Os fatores de pressão adicionais são os seguintes:

 

  1. As firmas, em geral, vêm de uma trajetória de crescimento sustentado e elevado nos anos anteriores, tanto em estrutura quanto em número de profissionais, com maiores necessidades de capital.
  2. A crise de liquidez sofrida pelas empresas é transferida, de uma forma ou de outra, para as firmas, que veem como o seu rendimento por hora trabalhada pode ser um pouco menor e são pagas com um pouco mais de atraso.
  3. As firmas continuam a se descapitalizar uma vez por ano para manter uma lucratividade adequada para os sócios por suas contribuições de trabalho.
  4. A margem sobre os associados, ou rentabilidade que os sócios obtêm do trabalho realizado pelos associados, é menor em contextos de crise. Os escritórios obtiveram índices de rotatividade por advogado muito elevados nos últimos anos, onde já há pouca margem para maior eficiência e carga de trabalho. Todas as medidas que têm sido exigidas pelos profissionais na integração da vida profissional e pessoal, ou mais recentemente, no trabalho remoto, têm um impacto negativo nestes elevados valores de faturação por advogado.
  5. As diferenças nas contribuições dos sócios, causadas pelos assuntos mais e menos afetados pelas crises, aumentam. O caráter temporário do imóvel favorece a otimização da capitalização do conhecimento do sócio no curto prazo, dentro da firma ou em outra, se for o caso.

A descapitalização uma vez por ano, somada ao perigo de saída de sócios lucrativos por falta de lucratividade da firma, pode causar uma situação complicada. Ninguém pode impedir um sócio de deixar a responsabilidade remanescente na firma para o resto dos sócios. Em alguns casos, essa dinâmica levou ao colapso da firma (basta lembrar como transcorreram os últimos dias da firma “Dewey e LeBoeuf”).

 

Os riscos que surgem do modelo financeiro das parcerias descritas têm um efeito multiplicador na cultura da firma. Uma sólida cultura da firma, sustentada ao longo do tempo e partilhada por todos os sócios de uma firma, minimiza o risco do modelo financeiro das sociedades, embora implique uma maior socialização de parte dos benefícios (mas também dos riscos).

 

Essa socialização só é aceita quando as organizações têm muitos anos e vivenciaram ciclos em todos os sentidos, favoráveis ​​para alguns sócios em alguns anos e desfavoráveis ​​em outros. As constantes mudanças na cultura da firma, como os critérios para remunerar sócios e profissionais, o poder da meritocracia na ascensão profissional, o tipo de crescimento das firmas e a variação no tipo de serviços prestados aos clientes exercem um perigoso efeito multiplicador sobre o risco do modelo financeiro das parcerias, que se soma a todas as tendências descritas neste artigo.

 

Os escritórios de advocacia apresentam grande rentabilidade para seus sócios. Mas essa lucratividade se sustenta em um equilíbrio instável e em fatores com pouca margem de deslocamento. Não se deve esquecer que essa rentabilidade é gerada pelo trabalho que o sócio contribui, pela margem obtida sobre os associados e pelo retorno do capital aportado.

 

As decisões tomadas nestes tempos difíceis não devem comprometer nenhuma fonte de origem da composição dos benefícios. A cultura da firma é essencial para manter a coesão na parceria e no futuro das firmas.

 

*Miguel Ángel Pérez de la Manga Falcón é professor de administração de firmas de advocacia da Universidade de Navarra e sócio da Pérez + Partners.

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