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Atualmente estamos vivendo uma polarização da realidade/Pixabay
Atualmente estamos vivendo uma polarização da realidade/Pixabay

Polarização da realidade: China

Debates e teorias conspiratórias geram efeito em cadeia na sociedade.
por Roberto Dumas*
publicado em01/10/2020

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Começo esse artigo fazendo uma enorme deferência ao artigo da economista Monica de Bolle, do Peterson Institute for International Economics (PIIE), de 30 de setembro no jornal “O Estado de São Paulo”, sendo que apesar do título fazer menção às eleições nos EUA, o mesmo mostra um pouco sobre a polarização da realidade que estamos vivendo atualmente.

Desde que iniciei minha carreira como economista, e não, não aprendi isso nem na faculdade e nem nos outros cursos, religião não se discute e peço perdão a algum leitor eclesiástico se eventualmente entender que profano a verdade, mas sob meu ponto de vista, discussões sobre religião, principalmente entre nós pecadores não marcados pelos stigmatas não passam de uma enorme pressuposição apoiada fortemente pela fé. Calma! Não me excomunguem. 

Acredito no Deus Pai Todo Poderoso e sou temente a Deus, mas por que digo que essas discussões não podem ser acaloradas ou lacradas em verdades? Claro, podemos ler a Bíblia e acreditar ou não no que está escrito, afinal, fé não se discute e nem se debate e mesmo se considerarmos os vários testemunhos datados há pelo menos 2.000 anos a história acaba se perdendo e se modificando ao longo do tempo, além do que difícil achar alguma testemunha ocular sobre o que aconteceu quando Jesus esteve na terra. Mas o que quero dizer com tudo isso?

As discussões hoje em dia, em tempos de mídias sociais e lacração sem o menor pudor, tornaram-se extremamente desagradáveis. Por mim eu até me viro com os perrengues que tenho em algumas mídias sociais com bloqueios e gotas de clonazepam, mas e aqueles que acreditam em tudo que leem nas mídias? 

Não me levem a mal. Não acho que em muitos debates de ideias do outro lado da mesa exista alguém que busque conscientemente te corromper intelectualmente, mas debates de ideias são debates de ideias, frutos de extrapolação de experiências passadas, fatos comprovados, crenças, estudos, comprovações acadêmicas e mesmo as mais esdrúxulas.

Alguns de vocês podem até achar que seu interlocutor exagerou um pouco nas sessões pós-hipnóticas, mas ideias são ideias, e suas comprovações são baseadas em premissas, extrapolações, exercícios econométricos, bom-senso etc. Há espaço para algum debate e, claro, em alguns a paciência se esgota. E como! 

Mas o que mais tem me chamado a atenção atualmente é o debate da realidade, ou o negacionismo travestido de teorias conspiratórias absurdas que nos deixam absolutamente estarrecidos. Note como atualmente somos um país de 212 milhões de médicos infectologistas, os quais alguns lacram sem medo algum de eventualmente pularem três ou quatro fases de confirmação sobre o que estão falando.

Alguns clamam, por incrível que pareça, que a Covid-19 simplesmente não existe, que é tudo manipulação dos governos federal, estadual, ou municipal para lhe prejudicar. O que esses governos ganhariam com o seu ódio sinceramente não sei, mas insistem em suas narrativas. Outros ainda acreditam no vírus, mas acham que exageramos nas precauções, apesar de não terem lido sequer uma página científica sobre o assunto. E o que é pior, essas pessoas acabam por nutrir um ódio, quase que irremediável, caso você as conteste sobre a origem dessas informações para tamanha conclusão em sua tese de doutorado.

Notem como parte dos 212 milhões de infectologistas tratam o protocolo de uso de máscara: “isso é ridículo”. Por favor, não me perguntem se é ou não (vejam eu me colocando no meu devido lugar), mas os médicos parecem ser unânimes quanto a isso.

Mas se você usa máscara e busca um protocolo de distanciamento, apesar do seu conflito interno e incerteza, e acaba por buscar as melhores informações das mais conceituadas fontes, você é taxado implícita ou explicitamente de uma ala a favor ou contra o governo. Fazem questão de ignorar a ciência, pura e simplesmente. E vejam que eu não estou falando dos mais desprovidos intelectualmente. Estou falando do seu vizinho, do seu amigo de facebook que ouviu da irmã, da amiga, da mãe da cozinheira, que máscara não resolve e acaba espalhando essa notícia como PhD em infectologia em pós revisão de uma banca de cientistas. 

O atual governo de São Paulo acabou de lançar a vacina produzida pelos chineses pelo laboratório Coronavac, em associação com o Instituto Butantã. Quantos da sua família já disseram que não iriam tomar? Baseado em que? As autoridades médicas do país deram sinal verde e ninguém precisa acreditar nisso ou naquilo, mas achar que sabe mais e ainda testemunhar com seus dedinhos nervosos e escondidos por trás da tela do micro que nenhuma vacina que venha da China presta, mesmo não sabendo nada sobre vacinas, é assustador.

Assustador porque essa opinião não ficará somente sob a escuridão intelectual do “pensador”, pois ele disparará essa opinião sem base acadêmica nenhuma, apenas preconceituosa, para inúmeras pessoas que, infelizmente, não conseguem distinguir a verdade do puro preconceito. Mas já que essa informação foi repassada por alguém bem de vida, como seu vizinho, ou o chefe do seu primo, ora, ele deve saber mais do que eu. Assim pensam os menos privilegiados. 

Percebam o desserviço desses lacradores de mídias sociais.

O vírus veio da China? Sim, e nunca ninguém duvidou. Veio de Wuhan? Sim, exatamente. O vírus foi produzido em laboratório chinês? Não se pode afirmar, pois com mínima leitura e análise dos maiores relatórios e pareceres de entidades, inclusive dos EUA, parece que essa afirmação não procede.

Ora - quando alguém diz que a China quis infectar o mundo e matar centenas de milhares de pessoas e dessa forma não podemos confiar neles - a primeira coisa que eu pergunto é se ele ou ela já se ouviu falando isso. A segunda é: por que raios a China quer se tornar a vilã número um do mundo, sendo que ela faz parte de uma emaranhada rede de cadeias de suprimento e não faria bem aos negócios ser taxada de criminosa do século? Mas essas digressões e sinapses neurais pouco importam, pois o que importa é o que eu acho, e assim lasco o dedo escondido atrás do teclado, mesmo sendo a teoria extremamente absurda. E vejam o efeito em cadeia.

Um vídeo postado no facebook atualmente mostrando uma mulher dizendo que dois chineses, em um conference call (olha a amostra representativa da população!), falaram que não ficaram em quarentena, pronto, certamente será compartilhado por alguém que irá afirmar que o isolamento no ocidente foi aconselhado pelos chineses para derrubar a economia do ocidente e, assim, permitir que o comunismo domine grande parte dos afetados. Vejamos. 

Em primeiro lugar, esse vídeo não corresponde à verdade. Morei 4 anos na China, tenho vários amigos brasileiros residentes na China, converso com eles semanalmente, e sim, a quarentena, pelo menos em Shanghai e Wuhan, durou pelo menos 2 meses. Mas alguém que disparou esse vídeo buscou se certificar in loco ou junto a alguém que pudesse confirmar a afirmação? Esse lacrador raivoso fez alguma pesquisa local, morou ou esteve no país, pesquisou junto à Embaixada, Consulado, ou mesmo contatou brasileiros empresários que lá moram há mais de 15 ou 20 anos? Não. O que importa é a retórica raivosa, descabida, e perniciosa para a sociedade, apesar de muitos não conseguirem apontar a China no mapa, e sequer explicar a história do país desde 1979. Atacar a China garante mais likes e visualizações. 

A China é comunista e quer comprar o mundo. Não, e pasmem, a China não é comunista. Sua forma de produção é a do capitalismo estatal. Mas então por que ela é uma ditadura? Acreditem, ainda tem gente que não distingue uma coisa da outra. O fato de a China ter um sistema político totalitário e repressor não a torna comunista, nem Marxista ou Leninista. 

Mas então por que o país é controlado pelo PC Chinês?

Em junho de 1989, após o massacre da praça da paz celestial, a China desapareceu para o mundo. Deng Xiaoping, então o líder da época, entrou em ostracismo, apesar de implementar uma reforma que buscava trazer a meritocracia para a economia (household responsability system), depois de anos de comunismo fracassado, de 1949 à 1979, liderado por Mao Zedong. Com o massacre, os antigos Maoístas queriam voltar ao poder, mas quando a URSS caiu, Deng Xiaoping, receoso de que grande parte dos recursos internacionais acabariam indo para as antigas repúblicas soviéticas, costurou um grande acordo com o PCChinês e com o Conselho de Estado, prometendo que se ambas instituições apoiassem seu retorno e a continuidade das reformas e abertura econômica (Zonas Econômicas Especiais), eles sempre ficariam no poder. Dessa forma, tanto o PCChinês, quanto o Exército de Libertação do Povo (ELP) e o Conselho e Estado aprovaram o retorno de Deng Xiaoping.

Mas por que eles não podem ser chamados internamente de capitalistas? Aliás, essa era a discussão no momento de retorno de Deng ao poder. Deng Xiaoping sabia que a economia não era comunista e nem socialista, mas não podia caracterizá-la como capitalista tendo o PCChinês como líder do país. Assim, e para acomodar todos os interesses, Deng lançou o nome de Economia Socialista com Características Chinesas, mas sabendo que implementaria uma economia capitalista com forte presença estatal, mas não comunista, na qual o governo oferece insumos, exige determinado nível de produção, e sem remunerar de acordo com a produtividade. A velha estória do gato e o rato, em que “não importa a cor do gato, contanto que ele pegue o rato”, mostrou o desprezo de Deng Xiaoping em incluir o país em algum sistema econômico absolutamente inflexível. Aliás, para aqueles que ainda acreditam que a China é comunista, fica difícil ver um líder de um país comunista dizer que “ficar rico é glorioso”, e ainda contar com duas bolsas de valores desde 1991 e 1992: Shanghai e Shenzhen. 

Mas o que importam os fatos?

Outros ainda defendem “com unhas e dentes afiados”, e “cérebros dormentes”, a não participação de chineses em leilões de concessões de infraestrutura tais como hidrelétricas, termelétricas, rodovias, aeroportos, ferrovias, dentre outras aqui no Brasil, bradando o “mentor de frases de para-choque de caminhão”, que “perderemos nossa soberania em segmentos estratégicos”. Mas como o Brasil poderia perder a soberania, se todas essas obras são parte de um contrato de concessão estabelecido pelo governo federal ou estadual, que estabelece rígidos padrões de eficiência e prontidão? Qual o medo? De que talvez os chineses possam levar as turbinas das hidrelétricas, as águas dos rios onde essas hidrelétricas estão localizadas, as rodovias e as ferrovias para Xangai?

Ora, se não cumprirem o que está escrito no contrato de concessão, perdem o direito de explorar tal serviço. Simples assim. Mas parece que o que importa, desde o outbreak do coronavírus e outros acontecimentos, é buscar informações  não tão fidedignas nas redes sociais e lacrar como PhD em todos os assuntos. Um enorme desserviço.

*Roberto Dumas é economista, professor do Insper e Ibmec e especialista em mercados asiáticos.

Una-se à discussão!

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