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A carreira legal e a liderança feminina

Mulheres querem igualdade de representação nos cargos de chefia dos escritórios de advocacia
por Luciano Teixeira
publicado em08/03/2020
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Brasil

Desde os anos 1980 o país viu aumentar o número de mulheres na carreira da advocacia. Primeiro, cresceu o número de estudantes de Direito nas universidades. Agora, elas já representam 48% dos profissionais brasileiros, segundo um levantamento feito pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em 2019.

A previsão desse mesmo relatório é de que em 2020 o número de profissionais mulheres ultrapasse o de homens em números. Mas o desafio hoje em dia é outro: sair da base da pirâmide do mundo jurídico e conquistar cargos de chefia.

A própria OAB reconhece a necessidade disso. Em 2015, criou o Plano Nacional de Valorização da Mulher Advogada, o provimento 165/2015. Nele, a entidade prega a eliminação de obstáculos e situações que impeçam as mulheres não só de exercer a profissão, mas de chegar a cargos de liderança, no topo da carreira.

E esse é o tema da nossa entrevista com Cristianne Zarzur, sócia do escritório Pinheiro Neto em São Paulo e fundadora da Comissão das Mulheres Advogadas.

Cristianne Zarzur

Como foi a criação da Comissão e o que isso significou para a carreira de mulheres advogadas no escritório?

Há 11 anos montamos a Comissão da Mulher Advogada. Nossa intenção é ajudar a carreira da profissional, sobretudo visando manter as mulheres aqui e aumentar a quantidade delas nos cargos de chefia. Na base, temos um número equilibrado de homens e mulheres e no topo você tem muito mais homens que mulheres. Buscamos identificar os problemas que as mulheres enfrentam, que impedem elas de chegar ao topo.

A que você atribui isso?

Nos ambientes em que há majoritariamente homens, e acredito que não é proposital, existe um viés, um gap das reações e expectativas ou dos parâmetros de avaliação que acabam sendo muito masculinos.

Que são?

Os incentivos, as reações e os comportamentos acabam sendo muito masculinos. Eu te dou um exemplo. A mulher quando trabalha muito, fica até mais tarde e está casada o colega de trabalho fala: como que você faz com seu marido em casa? Coisa que você nunca fala para um homem, se ele está trabalhando até mais tarde você diz: você é campeão, consegue ir até mais tarde.

Então o mundo legal tem uma cultura muito masculina, é isso que você diz?

Tem vieses de comportamentos e comentários que valorizam atributos que são essencialmente masculinos e que ao longo da vida da mulher, essas pequenas coisas que vão acontecendo, acabam desestimulando e tornando o ambiente menos acolhedor.

Então, no início da carreira, tá todo mundo igual. São todos jovens, solteiros e querendo se posicionar. Ao longo da vida o que se espera do homem é que ele ainda seja o provedor. Então tudo bem ele trabalhar um monte e ser o provedor. E a mulher ao final do dia acaba ocupando outras atribuições fora da vida profissional, que se espera que ela continue ocupando. E isso é uma questão de sociedade que está muito focada no homem que trabalha e na mulher que pode ou não trabalhar. Estamos  mudando, mas isso ainda acontece.

O ritmo dessa mudança tem ajudado as mulheres?

A divisão de tarefas fora do ambiente de trabalho precisa que isso aconteça mais rapidamente para que a mulher tenha um maior equilíbrio. Todo mundo continua esperando da mulher papéis que não são atribuídos ao homem: de mãe, da educadora dos filhos, da gestora da casa, do pilar da família e tudo mais.

Tudo isso desvia as energias da profissional e eu vejo isso no escritório. Se ela não tem um ambiente acolhedor no trabalho, a balança pende muito mais para o que está fora do escritório.

Então quando ela casa e tem filho, é claro, os filhos têm um peso enorme na vida da mulher. Se ela não tem no escritório uma compensação, vai estar sempre achando que está devedora no escritório e na casa. E aí chega um momento em que ela acredita que não está valendo a pena. E tende a escolher uma outra carreira que seja mais flexível ou simplesmente abandona o Direito.

Qual então o desafio dos escritórios em relação a essa questão?

Tornar o ambiente profissional mais receptivo para características menos masculinas e valorizar os atributos femininos, as características da mulher como profissional. Os nossos clientes exigem isso. A clientela não quer mais entrar numa reunião que só tem homem. O cliente quer chegar e ser recebido por uma equipe heterogênea.

Nós temos que entender que a diversidade, as maneiras de pensar diversas enriquecem o trabalho. Num escritório como o nosso, onde o cliente paga por uma solução diferenciada e única, a diversidade é uma condição sine qua non para que continuemos a ter um escritório de vanguarda.

Quais são os desafios da carreira da mulher advogada?

Começou como um movimento efetivamente feminino, com nós mulheres falando desse assunto. Aí tivemos que enfrentar alguns questionamentos. Vão falar do que? Que vocês querem trabalhar menos e ganhar mais, que vocês precisam de mais flexibilidade e nós não? Isso era o que a gente ouvia lá atrás. Mas hoje em dia nós conversamos sobre várias questões com grande naturalidade.

Inclusive na nossa Comissão da Mulher Advogada existem homens que participam, tanto sócios como associados, porque eles são parte integrante dessa discussão. Os homens que hoje têm mulheres que trabalham, que têm filhas que estão se inserindo no mercado e que sabem que não existe mais um modelo em que só o homem é o provedor e que sabem que a sociedade é mais equilibrada quando homem e mulher dividem papéis, tanto no ambiente profissional quanto pessoal.

Os jovens advogados homens querem ser pais, querem sair de licença maternidade, querem estar com a família e ser excelentes profissionais como as mulheres também querem ser topo de linha.

O que faz uma mulher advogada subir na carreira e o que a impede ela de progredir?

Para ascender na carreira ela precisa de incentivos diferentes dos homens.

Como?

Ela tem que ter respostas e feedbacks diferentes que o homem tem. A estrutura empresarial em termos de gestão é que tem que realizar isso. De que é necessário ter uma política de acompanhamento e de gestão da carreira da mulher que seja diferente da do homem, o que não significa tratamentos diferenciados.

Tipo o que?

Tipo feedbacks, treinamentos e programas diferentes. Dou um exemplo: quando a mulher volta da licença maternidade está naturalmente mais fragilizada, por várias razões. Eu tenho dois filhos, não sei se você é pai.

Você volta achando que esqueceu tudo o que sabia, achando que é a pior das mães do universo, porque deixou um bebê em casa, na mão de alguém e que você deveria estar lá. É uma situação que não te deixa confortável nem aqui nem lá, o que causa muita insegurança para a mulher.

Observando isso comigo e com as associadas, a gente achou que teria que criar um programa que se chama Welcome Back, que é assim: quando a mulher está para voltar da licença, nós encarregamos algumas pessoas de serem mentoras dessa mãe. Começamos com uma conversas assim, do tipo: você vai voltar, está tudo bem, você vai ter um apoio, o que você precisa?

Então tem conversas com pessoas que passaram pela mesma situação para que a mãe entenda que é normal se sentir um pouco deslocada. Mas que todo mundo quer que ela volte e que está tudo bem. Não tem que optar em ser mãe ou ser profissional.

E que ela vai conseguir as duas coisas, desde que ela se equipe de algumas ferramentas. Ela tem que ter um grupo, apoio, organização e saber que tem pessoas com as quais ela pode conversar sobre dúvidas e tal.

Criamos uma rede de apoio e isso fez uma super diferença. Algumas coisas que para os homens parecem insignificantes e para as mulheres têm um impacto absurdo.

Vocês têm outros tipos de ajuda?

O Pinheiro Neto foi o primeiro escritório que aderiu ao selo Empresa Cidadã, que é o programa em que as mulheres podem optar por uma licença estendida de seis meses remunerada. Foi uma batalha conseguir isso! Todas aderiram a esse programa de seis meses, saem e voltam felizes, alegres e satisfeitas, porque ficam mais tempo com o bebê.

Reorganizamos o escritório para que a remuneração delas não fosse prejudicada nesse período e nem os chefes ficam incomodados e nem elas ficam se sentindo excluídas do sistema porque tiveram filhos. E tudo isso cria um ambiente mais humano e acolhedor.

Se você tem um ambiente em que a maternidade é um problema isso é um obstáculo.

Fora a maternidade, como lidar com a pressão exercida pelos homens em alguns momentos?

Eu não tenho nenhuma inibição em falar com homens e acho que isso me ajudou na carreira. Até porque eu cresci com meus irmãos e tinha que aprender a me virar. Mas o fato de ter um ambiente em que tem muito mais homens que mulheres, acho que elas ficam mais inibidas de falar.

E os homens têm essa tendência de interromper o tempo todo. É um fato. Até com meu marido, que ouve esse assunto o tempo todo, eu tenho que às vezes falar pra ele: até você?

É da natureza do homem interromper acredito. Então é claro que existe, porque um ambiente masculino obviamente tem isso. Precisamos fazer um exercício diário para quebrar esse vieses.

Inclusive estou aqui com um sócio meu querido que está (tentando interromper, ele fala) aqui me patrulhando. (Risos)

Como é a liderança feminina no mundo legal e nos escritórios de advocacia?

A liderança feminina é uma questão de necessidade de se manter competitivo no mercado. Eu acho que ela existe e tem que continuar existindo, é um desafio constante. Não é no mundo jurídico, é em qualquer lugar. A liderança tem sido masculina, a sociedade é assim, mas acho que tem mudado cada vez mais.

Aqui no escritório, por exemplo, sempre tivemos um papel importante, por muitos anos nossa gestora foi uma mulher, nosso sócio gestor é um entusiasta dessas questões femininas, super apoiador das nossas iniciativas. Acredito que o protagonismo das mulheres é fundamental.

Tem muito um papel que depende das mulheres líderes, de continuarem inspirando as mulheres mais jovens em acreditar que isso é possível. Esse é um papel que a gente tem que continuar a exercer.

E que elas continuem acreditando que, para ser uma profissional de destaque e uma líder, não é preciso abrir mão de outras coisas, seja família ou outros interesses.

O profissional ideal que se faz respeitado ou procurado no mercado é o completo: o bom advogado, bom profissional, bom gestor, a mulher que tenha uma equipe que funciona. É um conjunto de atributos. E esses atributos incluem você conseguir transitar em outros ambientes que não só o ambiente profissional.

A mulher tem muito essa habilidade. E essa capacidade é cada vez mais demandada, sobretudo pelos jovens. Se você quer ter um escritório ou uma empresa que pense no futuro, na minha visão, é inevitável ter cada vez mais mulheres na gestão.

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