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Amir Bocayuva: "Os IPOs vieram para ficar e acho que vamos ter cada vez mais"
Amir Bocayuva: "Os IPOs vieram para ficar e acho que vamos ter cada vez mais"

"Precisamos parar de copiar o que os americanos fazem e pensar na nossa realidade"

Amir Bocayuva, CEO do BMA Advogados, fala em necessidade de simplificação dos contratos jurídicos e como o mercado de capitais está se tornando uma alternativa real para financiamento das empresas brasileiras.
por Luciano Teixeira
publicado em20/08/2020

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Ele é o management partner de um dos maiores escritórios brasileiros, o Barbosa Müssnich Aragão, ou BMA, como é conhecido no mercado legal. O advogado é sócio da área de direito societário e empresarial da banca desde 1997 e tem vasta experiência em operações de fusões e aquisições, joint-ventures, além da criação de estruturas jurídicas para investimentos estrangeiros no Brasil e negociação de contratos e disputas societárias.

Numa conversa com LexLatin, o CEO falou sobre as possibilidades para os escritórios no mercado financeiro nos próximos meses e os desafios no pós-pandemia.

Como conciliar a liderança da área financeira e com a direção do escritório?

Amir Bocayuva:  É difícil, imaginava que nos dois primeiros anos dedicaria 60% para a gestão e 40% para os clientes, ou meio a meio, e que depois de um tempo conseguiria me dedicar menos à gestão como algo natural.

Mas isso foi uma grande ilusão, porque por melhor que seja o time que está no seu lado na gestão do escritório é preciso, no caso de um escritório de ponta, uma dedicação permanente. E assim como em diversos setores da economia, a advocacia também passa por um processo de disrupção, de transformação digital e aumento de competição. Na prática, o que aconteceu é que fiquei com menos tempo para a família e lazer, além de muitos cabelos brancos.

Você esteve à frente de transações importantes do mercado brasileiro, como a venda da XP Investimentos para o Itaú Unibanco. Qual foi a importância dessa transação para o mercado brasileiro e latino americano?

Amir Bocayuva: Fomos chamados para fazer o IPO da XP no Brasil e no meio do caminho recebi uma ligação de um dos sócios, falando da possibilidade concreta de fazer a venda para o Itaú. Foi uma negociação bastante dura, porque o Itaú se tornaria o maior acionista da XP, mas não poderia interferir no controle, no dia a dia. Então foram criadas uma série de proteções para resguardar o investimento dos fundadores, mas a negociação foi concluída com sucesso.

Para os fundadores da XP foi uma tremenda satisfação, um negócio que saiu literalmente do zero, de um mercado altamente concentrado, com uma barreira de entrada enorme. A empresa fez a disrupção do negócio, botou em xeque uma supremacia que os bancos tinham com uma larguíssima vantagem. Foi uma satisfação enorme, não só profissional, mas também de fazer parte de uma história como essa. Acho que o advogado vive muito o sucesso dos seus clientes.

Você é CEO do BMA desde 2016. Esse período de pandemia é o mais desafiador da sua administração até agora?

Amir Bocayuva: A pandemia gerou um desafio adicional, mas tivemos capacidade de reagir, de trabalhar remotamente. Vivemos de capital intelectual, de prestação de serviços. Os grandes escritórios já estavam preparados para o trabalho remoto, mas nunca pensado para 100% da força de trabalho. Claro que foi difícil, mas acho que foi menos difícil do que outras indústrias que foram muito mais atingidas pela pandemia.

Acho que o agora é meu maior desafio, mas não é por causa da pandemia, é porque a indústria jurídica passa por um momento de disrupção. 

O que vai acontecer?

Amir Bocayuva: Teremos esses provedores de serviços jurídicos alternativos. A pirâmide tradicional de um escritório de advocacia, com os advogados juniores na base, os plenos no meio e seniores no topo vai se transformar para um formato de árvore de Natal.

Como vai funcionar?

Amir Bocayuva: A tecnologia vai entrar na parte procedimental dos serviços. Então parte do trabalho que é feito por advogados juniores vai ser substituído por máquinas e inteligência artificial. Isso vai diminuir a demanda dos escritórios por profissionais juniores, pelo menos neste modelo. Nas duas bases dessa pirâmide de árvore de Natal você vai ter o outsourcing, os prestadores de serviços.

Como ficará a carreira com a tecnologia?

O primeiro efeito da tecnologia é a questão da longevidade. As pessoas estão vivendo  muito mais tempo, com muito mais a saúde. Aumentou a expectativa de vida e o tempo útil de carreira. Advocacia é uma profissão que a experiência conta muito. Aquele advogado experiente apaixonado pela sua profissão vai continuar tendo espaço. Tem alguns escritórios, principalmente fora do Brasil, que ainda adotam o modelo que obriga o sócio a se aposentar aos 60 anos. Só que eu acho que isso está começando a mudar. 

Os escritórios vão sofrer mais competição pela contratação de talentos, por exemplo, com as empresas de tecnologia. Eles terão que ser atraentes para essa nova geração e mostrar que sabem inovar. 

Vocês são um escritório de origem carioca e que estão entre os grandes do país. Uma provocação: dá para advogar hoje para grandes empresas, grandes grupos, sem passar por São Paulo?

Amir Bocayuva: Minha resposta pré-pandemia era de que é obvio que não dá. Somos um escritório que nasceu no Rio de Janeiro, mas quatro anos depois abrimos sede em São Paulo e hoje nosso escritório da capital paulista é tão grande ou maior que o do Rio.

Mas agora a pandemia está mostrando uma nova realidade.  É possível advogar de qualquer lugar. Será preciso ter capacidade de entrega, qualidade, comprometimento, disponibilidade e conseguir fazer negócio. Isso trouxe uma capilaridade maior para o mercado. 

O que o Amir Bocayuva agrega ao mercado legal brasileiro?

Amir Bocayuva

Amir Bocayuva: Sou uma pessoa que sempre teve uma vida saudável, sempre fui esportista, gosto de pegar onda, jogar futebol e futevôlei. Tento me colocar para as gerações mais novas como um modelo de advogado que é oposto daquela visão antiquada, formalista, que está de terno e gravata e só fala palavras rebuscadas. O Amir agrega mostrando ser uma pessoa que é a cara da nova advocacia: moderna, inovadora, que mostra que é possível você conciliar a vida pessoal com trabalho.

Satisfação tem relação com remuneração?

Amir Bocayuva: Claro que remuneração é uma parte fundamental, mas não é só isso. É preciso reconhecimento. Às vezes achamos que pagamos bem e de repente perdemos uma pessoa que sai do escritório para trabalhar em um lugar para ganhar menos. Não faz sentido isso. Nas décadas de 1980 e 1990 isso jamais aconteceria, mas hoje isso acontece muito.

Teremos uma onda de recuperações judiciais nos próximos meses?

Amir Bocayuva: Achamos que o volume de recuperações judiciais ia ser muito grande, mas os números têm sido menores do imaginávamos. As partes estão se sentando na mesa e tentando chegar um entendimento sem depender de um terceiro, sem delegar para um juiz.

Mas acho que ainda virá uma onda de recuperações judiciais, não acabou ainda a crise. A área de recuperação de negociação de dívidas terá muito campo de trabalho, não só por causa da pandemia, mas pela própria complexidade que as relações negociais vêm adquirindo com o tempo. 

E as privatizações?

Amir Bocayuva: Acho que vão acontecer, não tem saída. Não teremos mais saneamento se não for através do investimento privado, assim como as ferrovias. Portos, aeroportos, rodovias e energia elétrica são setores que o investimento privado já fez a diferença. O Brasil precisa de infraestrutura e o Estado não tem dinheiro. Era esse ano e não foi, vamos torcer para que seja em 2021.

Teremos uma fila de operações de abertura de capital na bolsa de valores?

Amir Bocayuva: Os IPOs vieram para ficar e acho que vamos ter cada vez mais. A taxa de juros a 2% torna obrigatório dois movimentos: investidores terão que buscar mais riscos para ter algum retorno dos seus investimentos e o mercado de capitais se torna uma alternativa real para financiamento das empresas.

As fusões e aquisições ficarão mais frequentes durante e depois da pandemia?

Amir Bocayuva: M&A vai ter sempre, a crise gera oportunidades. O Brasil precisa de mais competição no mercado privado em vários setores.

Um movimento que advogo muito é o da simplificação dos contratos. Se você pegar um contrato de M&A da década de 1980 ou de 1990 e o de hoje vai ver que ele é três ou quatro vezes maior que os anteriores. Isso significa que os contratos dessa época eram ruins? Não. Mas o Brasil sofre uma influência enorme da cultura americana,  que tem um sistema jurídico completamente diferente do nosso. Somos um país de base de direito romano, não anglo-saxão. Temos a Constituição e 500 códigos e leis que regulam até demais a vida civil e a atividade econômica. Importamos um modelo de negócios, juridicamente falando, dos Estados Unidos com contratos que tem 150 páginas e coisas que se repetem 500 vezes sem necessidade.

Com o mercado jurídico ficando cada vez mais competitivo, com os departamentos jurídicos das empresas e dos clientes tendo mais consciência de orçamento, esperando mais previsibilidade da contratação dos serviços jurídicos, a advocacia empresarial vai precisar ganhar eficiência e uma parte dessa eficiência se ganha tornando os contratos mais simples. Torna-los mais simples não é igual a torna-los mais frágeis ou menos robustos do ponto de vista jurídico. Precisamos parar de copiar o que os americanos fazem e pensar na nossa realidade.

O mercado vai sentir a pressão por conta das questões orçamentárias dos clientes. Eles não estão mais com vontade de sentar numa mesa e ficar pagando hora livre. O mundo vai ficando mais VUCA (volátil, incerto, complexo e ambíguo).

Como o escritório trabalha a questão da diversidade?

Amir Bocayuva: Dentre os escritórios grandes o BMA tem a melhor composição de gênero: 45% dos nossos sócios são mulheres. Isso aconteceu de forma natural. Do ponto de vista racial é um grande desafio. Sou bastante incomodado e engajado nisso. De concreto, o que fizemos foi nos integrar a duas alianças, a pela Igualdade Racial e o projeto Incluir Direito.

Você foi vice-presidente jurídico do Flamengo. Como vê essa relação entre direito e futebol?

Amir Bocayuva: Fiquei lá quase dois anos e ajudei o time na negociação do que foi o maior contrato de marketing esportivo já assinado por um clube no Brasil com uma empresa suíça que tinha os direitos de transmissão da Copa do Mundo.

Depois que o contrato foi assinado fui chamado para ser vice-presidente jurídico e, como condição, coloquei a profissionalização do departamento jurídico do clube. Foi ali a semente para a profissionalização da gestão do futebol. Vejo o Flamengo hoje conquistando estes frutos no campo desportivo.

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