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As mudanças e a adoção da tecnologia foram aceleradas pela pandemia e provaram cumprir seu objetivo / Pixabay
As mudanças e a adoção da tecnologia foram aceleradas pela pandemia e provaram cumprir seu objetivo / Pixabay

20 pontos para refletir: a nova normalidade e as mudanças que vieram para ficar

A pandemia desencadeou um experimento global cuja contribuição para a transformação digital do mercado jurídico não tem precedentes. A histerese reinará após a histeria?
por Bruno Mascello*
publicado em06/07/2020
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Há alguns meses, antecipamos dez tendências futuras no mercado jurídico. Inesperadamente, chegou a hora de reavaliar a previsão à luz do contexto atual da pandemia de Covid-19

 

Hoje, estamos testemunhando como um vírus desencadeou um experimento em escala global cuja contribuição para a transformação (digital) do mercado jurídico superará a de qualquer outro desenvolvimento, CEO ou gênio da digitalização e inovação. A histerese reinará após a histeria? A crise gerará mudanças sustentáveis ​​com diversas expectativas e preferências de clientes e funcionários ou será apenas uma interrupção temporária que será superada como se fosse um resfriado comum?

 

Sem dúvida, a crise da Covid-19 é relevante para a evolução do mercado jurídico. Não só causou uma crise de saúde com várias implicações sociais e políticas, mas certamente acabará se tornando uma crise financeira. Esta última afetará diretamente o mercado jurídico e seus diversos prestadores de serviços. Alguns dos pontos sobre os quais é importante refletir são:

 

1. Priorização de medidas de redução de custos. Atacar esse problema essencial é a medida de curto prazo mais eficaz para parar o "sangramento". Será aplicado amplamente e sem exceções a todas as unidades e funções comerciais. Os departamentos jurídicos devem demonstrar que são bons cidadãos corporativos, capazes de gerenciar eficientemente o orçamento e contribuir para o sucesso e a sobrevivência de suas companhias.

 

2. Queda irreversível na renda. A economia real sofreu um golpe dramático no setor de serviços. Se considerarmos que um país como a Suíça obtém 75% de seu valor agregado do setor de serviços, não há dúvida de que firmas e prestadores de serviços jurídicos serão severamente afetados. Por sua natureza, serviços jurídicos não são considerados produtos. Isso implica que tudo o que não é consumido instantaneamente não será mais consumido. É claro que existem algumas exceções (por exemplo, testamentos e divórcios), no entanto, algumas disputas já foram resolvidas ou talvez não sejam mais viáveis, pois as novas disputas relacionadas à Covid-19 não serão suficientes para compensar essa perda.

 

3. Perda de clientes. Pequenas e médias firmas dependem de clientes de pequenos e médios empreendimentos (PME). Muitas pequenas companhias não serão capazes de sobreviver à duração da crise ou sucumbirão à recessão que está se aproximando, de modo que não estarão em condições de gastar sua liquidez em serviços jurídicos. Dependendo da duração da crise, as grandes empresas também podem fechar suas portas.

 

4. Desaparecimento de firmas. Os escritórios de advocacia não estão em melhores condições do que as indústrias artesanais. Como organizações dependentes de dinheiro, eles não têm ativos e não acumularam reservas financeiras para enfrentar tempos difíceis e seus investimentos duram apenas algumas semanas. Os recursos estão esgotando rapidamente e isso pode precipitar o fechamento de algumas firmas. As grandes firmas podem colher benefícios de curto prazo porque, em tempos voláteis, incertos, complexos e ambíguos, os CEOs podem “recorrer às marcas” como uma precaução para evitar serem apontados por tomarem decisões erradas durante a crise. Marcas fortes têm melhores chances de sobrevivência, pois oferecem valor adicional (poderíamos chamá-lo de “seguro de proteção”).

 

5. Cortes de pessoal e pressão salarial. Com a queda na receita, o controle de gastos será fundamental. A renda dos sócios das firmas sofrerá reduções. Outro cenário possível será aquele em que os sócios são solicitados a injetar capital para preservar a liquidez, os associados sofrem cortes salariais e o tamanho da firma é reduzido por meio de demissões. Da mesma forma, será cada vez mais importante realizar os processos de faturação e cobrança em tempo hábil.

 

6. Revisão da estratégia e modelo de negócios. Neste momento, espera-se que os modelos e estratégias de negócios provem sua durabilidade e, se não, passem por revisões e alterações.

 

7. Impulso de digitalização. O mundo inteiro ficou digital; estamos falando de clientes, fornecedores, universidades e até tribunais. A tecnologia está sendo usada com mais frequência e com maior eficiência. Esse novo cenário surpreendeu algumas companhias e escritórios de advocacia que descobriram que não estão prontos para o trabalho remoto, não usam conexões VPN ou têm planos de continuidade comercial. As reuniões e intercâmbios virtuais serão normais, graças ao advento dos aplicativos de videochamada, essas horríveis conferências telefónicas com dezenas de participantes são coisa do passado.

 

8. Impulso de tecnologia legal. No futuro, é provável que exista uma melhor disposição para adotar a tecnologia legal e, ao mesmo tempo, não será mais vista como uma ameaça. Tudo isso graças à grande ajuda que seu uso significou durante esta crise. As companhias de tecnologia jurídica fortaleceram sua proposta de venda exclusiva e os clientes estão mais dispostos a combinar seu capital humano com a tecnologia.

 

9. Aceitação de novas formas de trabalho. Com o avanço da digitalização, novos modelos, como trabalho remoto, horário flexível e coworking, provaram ser eficazes, mesmo sem o rigor presencial do escritório. Somente se uma organização confiar inteiramente no papel, será muito difícil para os empregadores negar a seus funcionários a oportunidade de trabalhar em casa, pelo menos uma parte do tempo. O ambiente de trabalho e o estilo de liderança também precisam ser adaptados. Isso cria oportunidades para recrutar talentos de regiões menos caras ou contratar funcionários de meio período, principalmente advogados com mais de 50 anos ou com crianças pequenas.

 

10. Aceitação de assessorias online. Os serviços de consultoria online serão mais amplamente aceitos e não serão mais vistos como estranhos. Nesse contexto, quais são as implicações para o mercado jurídico?

 

11. Maior uso da equipe interna (terceirização) e pressão para praticar a reutilização. Para evitar cortes de pessoal no departamento jurídico, os custos de terceirização (por exemplo, escritórios de advocacia) serão mantidos os mais baixos possíveis. As tarefas serão reavaliadas levando em consideração se elas ainda precisam ser executadas pelo departamento jurídico ou por alguma firma, ou se novos fornecedores podem realizá-las com mais eficiência. Os conceitos de multisourcing serão aplicados para reduzir o risco de aglomeração e aumentar a diversificação de riscos. Os fornecedores escolhidos estarão prontos e treinados para disponibilizar muito mais do que um simples know-how (por exemplo, interdisciplinaridade, redes internacionais, experiência em tecnologia e processos e um modelo de negócios centrado no cliente).

 

12. Aceleração das negociações de preços. Os clientes solicitarão aos provedores de serviços que reduzam seus custos e ofereçam pacotes de suporte gratuitos. Isso será visto como um sinal de sua preocupação por eles.

 

13. Importância da comunicação dos líderes. Durante uma crise, você pode mostrar que é um verdadeiro líder, demonstrando sua capacidade, para melhor ou para pior. Você deve estar presente e mostrar que é um comunicador consciente e eficaz que pode manter a calma e a racionalidade, deve demonstrar suas habilidades para se comunicar de forma clara e honesta e ser solidário e empático.

 

14. Caráter essencial do enfoque no cliente. Hoje, é possível mostrar um interesse real em seus clientes e sua sobrevivência, o que implica uma mudança de mentalidade, agora com uma perspectiva de fora para dentro, onde o cliente vem primeiro. Se os advogados estão confiantes nos esforços de novos clientes a longo prazo e na construção de relacionamentos duradouros, eles não deveriam ter que procurar.

 

15. Caráter vital de enfoque nos empregados. O modo como você lida com essa situação terá um efeito prolongado sobre os funcionários da empresa e será avaliado em futuros processos de seleção. Como empregador, você deixa seus funcionários irem com facilidade ou tende a criar confiança mantendo níveis razoáveis ​​de atividades e promovendo treinamento para seus associados?

 

16. Maior valorização do departamento de compras. Eles geralmente são especialistas na aplicação de medidas de redução de custos. O papel do departamento de compras se tornará cada vez mais importante e sua opinião mais valorizada, mesmo entre os departamentos jurídicos que tendem a ter uma atitude defensiva.

 

17. Uso da crise como ferramenta de seleção. Uma crise pode funcionar como uma prova de fogo. Em momentos de urgência, é essencial acertar as coisas e fornecer soluções jurídicas rápidas para os desafios importantes. Uma crise também ajuda a construir reputação, ruim e boa, e o resultado terá um efeito duradouro. Os advogados podem demonstrar suas capacidades de gerenciamento de crises e riscos mostrando-se como gerentes confiáveis ​​que ajudam a superar a incerteza. Em tempos difíceis, os clientes se tornam muito mais sensíveis, de modo que a boa comunicação se torna um fator diferenciador. A tão louvada relação de confiança está em risco e as firmas correm o risco de que os clientes insatisfeitos os troquem pela concorrência. A conquista de novos clientes ou o risco de perder os atuais para sempre dependerá de como os advogados ajam agora.

 

18. Prevalência do conceito de "fazer mais". Hoje, os departamentos jurídicos são forçados a fazer mais (menos terceirização), correr mais riscos (sem hesitar) e demonstrar que podem trabalhar mais rápido e com menos dinheiro (ganhos de eficiência). Esse efeito vai durar como vimos após a crise financeira de 2008.

 

19. Novos desafios jurídicos. No curto prazo, podemos passar da operação comercial (além de esclarecer termos relacionados às cláusulas MAC - material adverse change - motivo de força maior) para falências e reestruturações. A longo prazo, o questionamento da globalização e especialização; a avaliação crítica das cadeias de suprimento remotas e a abordagem da produção ao usuário final, bem como a dependência dos riscos de aglomeração e vulnerabilidade dos clientes, podem dar origem a novas questões que devem ser resolvidas pelos advogados. Novas oportunidades surgirão para o mercado jurídico.

 

20. Tempo de inovar. Sempre se pode esperar e depois reagir. No entanto, o contexto atual é uma oportunidade. É o momento de otimizar e inovar e de nos posicionar como pioneiros no mercado. Uma crise tem o potencial de acelerar mudanças (por exemplo, regulamentos prontos para download, acordos assinados com um clique, resoluções on-line, acesso à justiça, mudanças nos procedimentos judiciais) e também pode alterar padrões de comportamento e derrubar velhas crenças.

 

Em poucas palavras, as mudanças e a adoção da tecnologia foram aceleradas e provaram servir a seu propósito. Não havia lugar para eleições ou procrastinação, pois todos foram forçados a lidar com a nova situação ao mesmo tempo. Foi necessário aprender rapidamente e ter flexibilidade e agilidade. A maneira como os advogados trabalham e interagem com seus clientes e como eles usam a tecnologia já mudou e continuará a mudar - assim como sua mentalidade. A rotina conhecida se perdeu, em grande parte para sempre, dando lugar a algo inteiramente novo. Após o coronavírus, não voltaremos ao equilíbrio inicial.

 

* Bruno Mascello é diretor acadêmico da Executive School of Management, Technology and Law en University de St. Gallen. Este artigo foi publicado originalmente em inglês  What is the next normal in the legal market and here to stay after Covid-19, in:  Business Law Magazine, número 2/2020, 4 Junio 2020, p. 3-6.

 

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