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Moeda norte-americana vem perdendo valor frente às principais moedas mundiais/Pixabay
Moeda norte-americana vem perdendo valor frente às principais moedas mundiais/Pixabay

E o dólar, hein?

Quais as razões para a moeda considerada porto-seguro dos investidores entrar em um movimento descendente?
por Roberto Dumas*
publicado em30/07/2020
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Economia

Definitivamente o ano de 2020 não está para amadores. Sobe dólar, desce dólar. Por que será que subitamente o nosso câmbio apreciou de R$/US$6.0 para apenas R$/US$5.13 em meio a uma crise sanitária, econômica e ambiente de rusgas entre os poderes? Mesmo com a politização da Covid-19, dividindo 215 milhões de brasileiros infectologistas e economistas lacrando receitas de como endereçar a pandemia, tanto sob o ponto de vista de tratamento medicamentoso quanto econômico?

Mas para o nosso alento, se é que existe algum, a moeda norte-americana vem perdendo valor frente às principais moedas também, como o Yen japonês, o Euro e o Yuan chinês.

Se avaliarmos o índice DXY, que mede a valorização ou desvalorização do dólar frente aos seus principais parceiros econômicos, veremos que ele desvalorizou de 102.82 em fevereiro de 2020 para atuais 93,71 (em 29 de julho). Mas quais as razões para a moeda considerada porto-seguro dos investidores entrar em um movimento descendente? Primeiro, há de se observar que o dólar norte-americano ainda continuará sendo a principal moeda de reserva por vários anos ainda. Mas vamos aos pontos conjunturais que tem levado a depreciação da moeda do Tio Sam:

  • Nova onda de coronavírus nos EUA. Se é que podemos dizer nova onda, mas parece que a abertura da economia antes da hora, fez com que a escalada do número de infectados e mortes aumentasse nas últimas semanas, minimizando a possibilidade de os EUA terem uma recuperação econômica rápida ou em “V”, como dizem os economistas. Provavelmente será em “U” ou “W’, esse último comportamento em “W” mostra que a economia começou a sair do calabouço, mas novos casos de coronavírus em outros estados ceifaram a possibilidade de uma recuperação rápida, ou seja, antes da economia norte-americana ganhar tração e seguir sua trajetória de crescimento, os EUA estão tendo de absorver mais um choque, postergando o crescimento;
  • A deterioração das expectativas da economia norte-americana ficou mais evidente, quando no dia 28 de julho, o Federal Reserve (FED – Banco Central dos EUA) anunciou a extensão por mais três meses de ajuda via empréstimos (+US$2 tri);
  • O FED está comprando todo tipo de título: Público (US T.bonds, MBS, etc.) ou privado (corporate bonds) com o intuito de emitir moeda para aumentar a liquidez do sistema. Estima-se que de janeiro de 2020 a 2021, o FED terá aumentado seu balanço de US$4 tri para US$12 tri;
  • Muito dinheiro na praça, além de impulsionar a valorização dos ativos de risco, tende a aumentar o preço de bens e serviços. A expectativa de inflação nos EUA já saltou de 0.5% a.a. para 1.5% a.a., ou seja, muito próximo do nível de tolerância do FED, de 2% a.a.;
  • As relações econômicas e políticas dos EUA com a China nunca estiveram tão complicadas, principalmente com o fechamento do consulado da China em Houston (Texas) e o consulado dos EUA, em represália, em Chengdu (Sichuan). Próximo passo seria ver até quando as embaixadas serão fechadas e ambos países cortarem relações diplomáticas;
  • Ativos como ouro, prata, títulos públicos atrelados à inflação (Tips) estão subindo, o que mostra que os agentes financeiros estão buscando novas proteções para uma provável escalada da inflação nos EUA.

Mas dado todo esse cenário, será que o dólar norte-americano não perderá seu reinado como principal moeda de reserva para outras moedas, como o Euro, Yen japonês ou o Yuan chinês? Acredito que não, por algumas razões.

A zona do euro, composta por 19 países, é um projeto político iniciado logo após a Segunda Grande Guerra. Nitidamente esses países não formam uma área monetária ótima, ou seja, uma única política monetária estabelecida pelo European Central Bank (ECB) não serve a todos os membros da zona do Euro.

Além disso, ainda não se constituiu na região um federalismo fiscal, onde uma nação pode se endividar com a solidariedade (direito de regresso) de todas as nações. Poder-se-ia argumentar que assim como os EUA, e dada a livre mobilidade de capitais e pessoas, um trabalhador que perde emprego em Nova Iorque certamente poderá achar uma posição em Los Angeles ou outra cidade.

De fato, a região da zona do Euro permite essa livre movimentação de pessoas de modo a evitar choques macroeconômicos assimétricos. Se um trabalhador perder o emprego em um país poderá livremente buscar outra posição em algum dos 18 países remanescentes.

Dessa forma, se um país, digamos Grécia, entre em recessão, os trabalhadores de lá poderiam migrar para a Alemanha, em busca de novas oportunidades, minimizando o risco de o ECB adotar uma única política monetária que servisse apenas para alguns e não para todos os membros.

Em que pese que isso seja verdade, há de se levar em consideração as barreiras culturais e linguísticas para essa mobilidade. Enfim, com uma estrutura ainda totalmente fragmentada e ainda inacabada, dada a falta de federalismo fiscal, dificilmente o Euro seria páreo para o dólar no médio prazo.

Enquanto isso, o Japão continua de tempos em tempos em recessão e deflação. Dos últimos 25 anos, apresentou deflação em 13. Desde o estouro da bolha Nikkey em 1989, o país experimenta uma patologia chamada recessão de balanços e ciclo deflacionário-recessivo. Nome complicado, mas simples de entender. Um cidadão japonês sabendo que o preço de um bem cairá amanhã, decidirá postergar suas compras. Com vendas mais baixas, as empresas acabam por diminuir mais ainda os preços para atrair compradores. Sem sucesso, passam então a diminuir a produção ceifando postos de trabalho.

Nada aqui é cultural, como muitos clamam. “A cultura japonesa é voltada para a poupança”. Balela! Como um cidadão irá consumir algo, sabendo que amanhã o preço será mais baixo e ele ainda corre o risco de ser demitido? Dentro desse cenário, as empresas não tomam empréstimos, postergam seus investimentos e a recessão com queda do crescimento econômico fecha toda a equação perversa. Certamente não seria essa moeda que muitos gostariam de estar posicionados, em caso de crise mundial, talvez mais pra frente, bem pra frente.

O mundo poderia muito bem utilizar a moeda chinesa (Yuan) em substituição ao dólar como principal moeda de reserva do mundo. Discordo. A conta capital do balanço de pagamentos para investimentos em portfólio e empréstimos e financiamento da China é fechada para a livre movimentação de capitais.

 Mesmo que o governo decida abrir a sua conta capital e financeira, eliminando quaisquer restrições para a entrada e saída de capitais, sabemos que o Partido Comunista Chinês utiliza os bancos chineses como braço parafiscal para garantir um crescimento econômico, que evite tensões sociais.

Afinal a China é uma ditadura, mas não comunista. Cheios de empréstimos utilizados para financiar empreendimentos duvidosos, que certamente não lograrão gerar o retorno necessário para o pagamento da dívida, os bancos chineses estão abarrotados de non-performing loans (NPLs) ou créditos impagáveis.

Além disso, a China ainda faz grande uso de repressão financeira (baixas taxas de juros), como forma de subsidiar o capital das empresas. Em caso de livre movimentação de capitais, um eventual aumento dos juros nos EUA suscitaria uma fuga de capitais do país levando-o a uma crise cambial.

Se as empresas locais estiverem alavancadas em moeda estrangeira e sem proteção cambial, uma crise cambial poderia levar a uma crise corporativa e econômica, com pesados efeitos no nível de desemprego, o que poria em risco a legitimidade do Partido Comunista Chinês.

Ora, se posicionar em uma moeda, a qual o seu país emissor controla as taxas de juros, intervém pesadamente no mercado de câmbio e limita a livre entrada de capitais, não seria uma boa alternativa para substituir o dólar norte-americano.

Alguns poderiam dizer que os bancos chineses não mais serão usados como braços fiscais do governo. Esse discurso apesar de levantar a arquibancada é falacioso, pois em um caso de menor crescimento econômico, acredito ser muito difícil o Partido Comunista Chinês não utilizar os bancos chineses, como forma de fomentar um crescimento econômico anabolizado, financiando projetos desnecessários.

Tudo isso junto e misturado, e mesmo que o dólar tenha se depreciado frente às principais moedas, trata-se de um resultado conjuntural e não estrutural, e certamente o dólar norte-americano continuará sendo a principal moeda reserva mundial por um bom tempo, ainda.

*Roberto Dumas é economista especializado em mercados asiáticos.

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