O novo modelo de trabalho dos escritórios de advocacia

O novo modelo é focado em flexibilidade e bem-estar dos profissionais/Pixabay
O novo modelo é focado em flexibilidade e bem-estar dos profissionais/Pixabay
Home office, apoio financeiro, mais momentos de descanso e mudanças nos espaços físicos estão entre as novidades.
Fecha de publicación: 19/08/2021

Mesmo com o número de novos casos e mortes ainda bastante elevado no Brasil, autoridades de muitos estados e municípios já começaram a flexibilização das atividades. Desde a última terça-feira (17), todas as restrições de horário e capacidade máxima para estabelecimentos comerciais foram encerradas no estado de São Paulo. Com isso, os escritórios de advocacia já podem retomar o atendimento ao público. Como em outras atividades, a volta inclui distanciamento e medidas de higiene como disponibilização de álcool gel.

A equipe de LexLatin fez um levantamento entre alguns escritórios, em diferentes regiões brasileiras, para saber como está sendo a volta nesse período. Alguns já voltaram de forma híbrida, com equipes nas sedes e em home office. Outros se programam para retomar as atividades presenciais só no ano que vem, a depender da evolução da pandemia.


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Segundo a OAB Nacional, o Brasil tem 1,3 milhão de advogados cadastrados. A estimativa é de que o país tenha mais de 100 mil sociedades de advogados em atividade, sendo 43% de sociedades individuais.

No escritório Mattos Filho, as mudanças incluem a adoção do modelo híbrido de jornada laboral. A ideia é reduzir o impacto de distâncias físicas, otimizando o tempo de profissionais, clientes e parceiros. “Queremos criar uma cultura que ultrapassa o paradigma do escritório como único lugar de atuação. Seguiremos mantendo nossos clientes como prioridade, mas acreditamos que o desenvolvimento de nossos profissionais, o engajamento e a felicidade deles no trabalho é fundamental para mantermos nosso crescimento contínuo”, afirma Roberto Quiroga, sócio-diretor do Mattos Filho.

 

A firma passa a incentivar o trabalho remoto duas vezes na semana após o retorno às atividades presenciais, ainda sem data definida. Atualmente, os profissionais seguem em home office. Será oferecido apoio financeiro às despesas de internet e melhorias no teletrabalho, como mobiliário e acessórios. O escritório também adotou o smart office, espaços abertos e trabalho integrado. Mesas fixas darão lugar a estações de trabalho, que poderão ser reservadas a partir de agendamento por meio de um aplicativo.

Outra mudança são os trajes, que poderão, a partir de agora, ser um pouco mais casuais, a depender da ocasião. Em situações formais e reuniões com clientes que exijam traje social a vestimenta tradicional será mantida. Porém, em outras ocasiões, os sapatos de salto alto poderão dar lugar a sapatilhas. Trajes sem gravata e sem paletó também passarão a fazer parte do dia a dia dos profissionais.

Outro escritório paulista, o Pinheiro Neto, ainda não tem uma definição oficial. Mas a intenção é voltar ao modelo de trabalho presencial, com novos padrões de flexibilidade ainda neste segundo semestre. Tudo vai depender, segundo os sócios gestores, da evolução do processo de vacinação e a flexibilização anunciada por parte das autoridades.

“Acreditamos que até meados ou fim de outubro promoveremos a volta de grande parte dos integrantes, obviamente respeitando os protocolos e com exceção das situações que recomendem maior cautela ou maior flexibilidade. Temos a grande vantagem de termos, pelo menos em São Paulo, um prédio onde somos monousuários, o que facilitou a adequação de todas as instalações para essa nova fase”, afirmam os sócios-gestores Alexandre Bertoldi e Fernando Meira.

A firma contratou consultoria e investiu na adaptação e segurança das instalações. “Em nossa opinião, o trabalho à distância funcionou bastante bem e tem inegáveis pontos positivos, motivo pelo qual certamente seremos mais flexíveis. Entretanto, acreditamos que a transmissão plena de cultura, conhecimento e experiência só são possíveis com o contato e a interação presencial entre os integrantes e que não há ainda um substituto à altura dos escritórios com o modelo usual. Em nossa avaliação, somos mais produtivos e eficientes e entregamos um trabalho melhor atuando com conexões presenciais na maior parte do tempo”, avaliam os advogados.

O Cescon Barrieu também está repensando o modelo de trabalho. Para Joaquim José Aceturi de Oliveira, sócio-gestor da firma, o desafio é encontrar o ponto certo e a maneira ideal. “Coincidentemente nós estamos com mudança de prédio e de sede prevista para janeiro de 2022. Estamos convictos de que vamos trabalhar num regime híbrido, principalmente em São Paulo, onde as pessoas perceberam o benefício em termos de locomoção, onde pode ser evitado o trânsito, por exemplo”, avalia.

A firma está trabalhando com a hipótese de pelo menos três dias por semana no escritório. Em função disso, houve um rearranjo de espaço. A partir de agora não haverá mais lugares fixos, nem cadeiras e mesas que correspondam à totalidade dos integrantes. “Não se espera mais que a totalidade esteja presente no escritório ao mesmo tempo. Com isso, avançamos no uso mais racional do espaço”, diz Joaquim. Todos os colaboradores passam a ter acesso a laptops no lugar dos desktops. As salas também serão menores, com os espaços colaborativos e profissionais de diferentes setores trabalhando juntos.


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“Nossa ideia é usar a tecnologia e salas multimídia, com capacidade para parte das pessoas trabalharem juntas em pequenas reuniões e parte das pessoas conectadas de fora. É um novo modelo que estamos investindo e que vamos aprender a trabalhar”, explica Alessandra Sanches, diretora administrativa do Cescon Barrieu.

Outro desafio é a questão do bem estar das pessoas. “Qual é a diferença entre a minha casa, o lugar onde descanso e o que trabalho? Existe uma limitação, preciso parar de vez em quando? É um looping, uma reunião atrás da outra que vemos acontecer e não tem intervalo. A ideia é focar em comunicação para esclarecer e ajudar as pessoas a se organizarem e aprenderem a trabalhar nesse novo modelo”, analisa a advogada.

O que muda em outras regiões do país

Para representantes de escritórios de outras regiões fora do eixo Rio-São Paulo o modelo de trabalho vai acompanhar as mudanças dos tribunais, mas também tem relação com as questões de logística. Hoje os protocolos de higiene e segurança são maiores, mas também foi preciso equilibrar as atividades de cada setor.

No Pará, por exemplo, onde as distâncias são continentais, já havia dependência das plataformas digitais antes da pandemia. Mas a dificuldade de conexão em alguns lugares também influi. 

“O escritório já voltou a funcionar na totalidade com a liberação do ambiente presencial. Mas algumas atividades, que não têm a necessidade do atendimento presencial, ajustamos para a continuação do home office, como a consultoria. Em outros setores continuou presencial, como a litigância, a defesa do cliente e a manutenção dos ambientes administrativos”, afirma João Carlos Aragão Addario Junior, sócio da banca Silveira, Athias, Soriano de Mello, Guimarães, Pinheiro & Scaff - Advogados, na região Norte.

“Uma questão que ficou muito forte neste ambiente é a possibilidade da ampliação da advocacia para o ambiente nacional, com a maioria dos atos judiciais não presenciais. Diminuiu também a atividade de correspondência, dos advogados contratados, o que hoje dá para fazer de forma não presencial através das plataformas”, diz o advogado.

Para os analistas, ao contrário do que pensavam muitos profissionais no início das restrições, a advocacia se adaptou bem ao momento de pandemia. “A possibilidade de acesso virtual aos tribunais, as reuniões remotas, os julgamentos por videoconferência e a flexibilidade de trabalhar em qualquer lugar, a qualquer hora, trouxe uma nova oportunidade aos escritórios de advocacia. É possível atuar em muitas praças, em um mesmo dia, através das conexões virtuais”, avalia Carlos André Rodrigues Pereira Lima, diretor do Da Fonte Advogados

O escritório, que tem presença na região Nordeste, se adaptou ao trabalho híbrido com rodízio entre os profissionais. A ocupação média do espaço físico durante a pandemia, segundo o CEO, não ultrapassou 30%. “O trabalho exclusivamente remoto, todavia, traz um risco de distanciamento do time, seja ele composto de profissionais da iniciativa privada ou do Poder Público. É essencial não perder o espírito de time”, afirma.

Ricardo Ranzolin, managing partner do Silveiro Advogados, que tem presença na região Sul e em São Paulo, explica que o escritório ainda está dimensionando o novo modelo de trabalho, mas ele também deve ser híbrido. “Para nós, é preciso que haja aceitação das pessoas e não imposição. Depois que caiu a obrigatoriedade de fechar os escritórios, 10% dos profissionais quiseram trabalhar de forma presencial. E outro público, que eu estimaria em torno de 30%, passou a fazer um trabalho híbrido - de forma informal, pois não havia a obrigatoriedade de ir trabalhar presencialmente. Uns passaram a ir apenas em um turno, ou alguns dias da semana”, explica.

Para os advogados consultados, o que marca essa nova forma de pensar a atividade jurídica, que está mudando no Brasil e no mundo, é o aumento da concorrência, desenvolvimento de novas tecnologias e controle de atividades não presenciais. Esses são fatores considerados diferenciadores e que podem influir no sucesso ou não do escritório a nível regional e nacional nos próximos anos, com ou sem pandemia.


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