Vamos rever o impacto do Legaltech no setor jurídico

Em que áreas a tecnologia jurídica está impactando o setor jurídico?/Pixabay
Em que áreas a tecnologia jurídica está impactando o setor jurídico?/Pixabay
O Direito sempre foi uma profissão que exigiu uma formação contínua, mas agora mais do que nunca esta formação deve ser expandida a outras áreas do conhecimento para além do mero técnico-jurídico.
Fecha de publicación: 15/03/2021
Etiquetas: Gestão LexLatin

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A tecnologia chegou ao setor jurídico para ficar, mas seu impacto nos levou a repensar os modelos de negócios, as formas de entrega, a própria relação com os clientes e, sem dúvida, o perfil do advogado e suas necessidades de formação para enfrentar os desafios desta nova era.

 

As tecnologias e suas denominações no setor jurídico chegam com certas diferenças em sua definição. Por um lado, Legaltech é entendida como aquela tecnologia que serve para uma melhor gestão dos modelos de negócios que oferecem serviços jurídicos e, por outro, Lawtech que se aplica ao tipo de tecnologia que empodera o comprador de serviços jurídicos para auto-assessoramento (modelos como milcontratos.com ou misjuicios.com). Mas permita-me adotar uma definição própria que é mais genérica e simples e que chamo de Legaltech ao uso de tecnologia no setor jurídico em qualquer uma de suas áreas.

 

Na indústria jurídica, a tecnologia nos permitirá ser mais rápidos, precisos e eficientes. Isso nos ajudará a tomar decisões com mais informação, tanto no setor privado quanto na administração pública, o que permitirá um maior acesso à Justiça e, portanto, uma sociedade com maior cultura jurídica.


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Vamos ver o impacto no perfil do advogado

 

O perfil do advogado nesta nova era deve se adequar às novas necessidades do setor. Novos conhecimentos sobre tecnologia e novas habilidades relacionadas à abertura para mudanças e inovação são necessários.

 

O Direito sempre foi uma profissão que exigiu uma formação contínua, mas agora, mais do que nunca, esta formação deve ser ampliada a outras áreas do conhecimento para além dos meros técnicos jurídicos. Isso não significa que um advogado deva aprender a programar, não, mas significa entender o ambiente da Legaltech e a evolução do mercado de serviços jurídicos.

 

Os advogados são cada vez mais empreendedores e devem formar equipes multidisciplinares com outros tipos de profissionais para gerar inovação e ajudar a regular a tecnologia que terá impacto, não só na administração da Justiça, mas em todas as áreas da nossa sociedade. A inovação deve ser a resposta dos advogados para se adaptarem às mudanças do ambiente e isso nos leva a um advogado mais completo, mais formado e claro, mais tecnológico.

 

Em que áreas a Legaltech está impactando o setor jurídico?

 

Padronização de serviços

 

Não podemos negar que existe uma percentagem de trabalhos jurídicos que é padronizável. Os especialistas falam em 30%, mas isso pode aumentar. Tudo o que pode ser padronizado vai acabar sendo feito por uma máquina. Resistir a essa tendência não faz sentido. Isso levará à automação de processos, à criação de modelos e ao crescimento de modelos de prestação de serviços industrializados. Acredito que esses modelos, além de "tirar" trabalhos de escritórios tradicionais, geram novos mercados para usuários que antes viviam longe do uso da prestação de serviços legais e de alguma forma podem contribuir para a criação de uma maior cultura jurídica que levará a um aumento do uso de serviços jurídicos. Esses modelos contribuem para o empoderamento do comprador de serviços jurídicos e já vemos como os documentos jurídicos gratuitos aparecem online para contratos ou outras necessidades jurídicas. A criação de comunidades na web e o compartilhamento de informações é uma tendência que não tem volta.

  • Cortes "online"

Para citar Richard Susskind, os serviços jurídicos são um lugar ou um serviço? Na minha opinião, são claramente um serviço e embora haja ainda um percurso tecnológico (ou seja, segurança, proteção de dados, identidade virtual, testes ...) tudo o que facilita a prestação desse serviço chegará mais cedo ou mais tarde e chegarão os testes virtuais carregados de vantagens.

 

Não acho que os juízes serão substituídos por uma máquina, mas eles terão mais informações e dados para a tomada de decisões. Desde a compreensão da linguagem corporal, microexpressões para saber se uma testemunha está mentindo ou não, até a análise da reincidência do crime (veja Futur Attibute Screenning Technology nos EUA) ou a revisão da jurisprudência em segundos. Teremos uma Justiça mais rápida e precisa.

 

Assistentes virtuais

 

Os assistentes estão entrando na nossa vida em áreas diferentes e o campo jurídico não será diferente. Desde o Watson da IBM e sua aplicação no setor jurídico desenvolvido pela Ross Intelligence. A utilização de assistentes virtuais para pesquisa e busca de jurisprudência em linguagem natural com a máquina é um foco de atenção na tecnologia aplicada ao direito. No entanto, não podemos nos deixar levar pela ficção científica e a linguagem natural entre o homem e a máquina requer muitos mais anos de investigação científica. Já existem esses tipos de assistentes, mas ainda há um longo caminho a percorrer até chegar ao momento da singularidade, momento em que as máquinas irão interagir em linguagem natural e podem até ter uma inteligência superior à humana.

 

Previsibilidade

 

O uso de dados para a construção de modelos e padrões leva-nos inevitavelmente a ser preditivos. Esta tecnologia está impactando o mundo do contencioso especificamente com produtos como Lex Machina ou Premonition no mundo anglo-saxão ou Jurimetrics na Espanha. Esses programas mostram taxas de sucesso, horas gastas e até valores de litígios. Porém, ao invés de pensar que a tecnologia será como uma bola de cristal, ela deve ser entendida como dados convertidos em informações que nos levarão a uma melhor tomada de decisão para que os riscos assumidos sejam menores.

 

Mas não podemos esquecer que também existem riscos associados aos modelos preditivos e que os próprios algoritmos podem ter vieses associados a seus próprios construtores e nos levar a conclusões errôneas ou predestinações em alguns casos, algo que não podemos deixar acontecer.


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  • Novas tecnologias e fim da intermediação

Não posso prever quais tecnologias surgirão no futuro, mas gostaria de acrescentar que também não saberia imaginá-las, apenas que nos surpreenderão e que devem ser acompanhadas de regulação e proteção das partes e dos dados necessários para o seu desenvolvimento. E sempre necessitarão de especialistas jurídicos nessas novas tecnologias, advogados treinados em novas disciplinas e com conhecimento de algoritmos.

 

O que posso avançar é para onde as novas tecnologias estão caminhando e isso é para a descentralização, o fim da intermediação e o empoderamento das partes.

 

Assim, o blockchain (conhecido como tecnologia de bloco) gerou criptomoedas e smart contracts, ou seja, contratos que são autoexecutáveis de maneira ​​automatica se uma série de condições forem atendidas. Os contratos inteligentes visam eliminar intermediários para simplificar os processos e, assim, economizar custos para as partes, ao mesmo tempo que obtém independência.

 

Estou convencida de que é impossível que algoritmos substituam advogados, entre outras coisas, porque seu entendimento só é acessível a alguns e porque os critérios jurídicos são regidos por outro raciocínio humanístico além do mero código. Tecnologia e direito devem andar de mãos dadas em equipes de trabalho mistas e complementares.

  • Smarts Laws

A evolução da tecnologia nos leva a pensar na criação de leis inteligentes que podem ser auto-aplicadas independentemente do regime político e que dependem apenas do cumprimento ou não de uma série de condições acordadas. Questões fiscais, auxílios e litígios ... poderiam ser acionados se as condições necessárias fossem atendidas.

 

Novos modelos, novos serviços

 

Derivado do avanço da tecnologia, já estamos vendo novos modelos de prestação de serviços jurídicos e novos serviços derivados de novas tecnologias, como o My digital legacy que usa a tecnologia blockchain para testamentos.

 

Da mesma forma, os smarts contracts são um novo serviço derivado da criação da tecnologia blockchain e criptomoedas como bitcoins. Há muito para avançar neste campo.

 

A tecnologia está crescendo exponencialmente, muitos paradigmas estão se rompendo, a força de trabalho está se tornando mais flexível e os serviços são online ou mesmo self-service.

  • Melhorias na gestão dos modelos de prestação de serviços jurídicos

Há uma grande parte do Legaltech que se aplica a esta seção. Não vamos confundir digitalização com Legaltech. Ter os documentos em formato digital não é o uso da tecnologia para melhorar a gestão, mas um primeiro passo básico. Nesse sentido temos como exemplos:

 

- Gestão do conhecimento

- Automação do processo

- Revisão de documentos

- E-Discovery

- Elaboração de contrato

- Gestão de contratos

- Conformidade

- E-faturamento

- Could computing

 

Neste campo, a inteligência artificial e principalmente a aprendizagem de máquina têm um papel muito relevante, uma vez que a aprendizagem de máquina (guiada ou autoaprendizagem) nos leva a uma evolução da gestão de qualquer modelo de prestação de serviços jurídicos a outro estágio.

 

Uso de dados biométricos

 

O uso desse tipo de dado se tornará cada vez mais comum, como se fosse um filme de ficção científica. Nos dirigimos inevitavelmente ao uso desse tipo de dados para autenticação e identificação de pessoas.

 

*Eugenia Navarro é sócia da Tama Projects, empresa de consultoria para escritórios e departamentos de advocacia, professora da Esade, Barcelona, ​​Espanha, co-diretora do MIT Professional Education in Spanish.

Email: enavarro@tamaprojects.com


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