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"Sou otimista em relação ao momento histórico que estamos vivendo"
"Sou otimista em relação ao momento histórico que estamos vivendo"

"Escritórios precisam estar prontos para acolher ambições femininas"

Simone Dias Musa, CEO do escritório Trench Rossi, fala de reforma tributária, liderança feminina e mudança no mindset das firmas para a questão de gênero.
por Luciano Teixeira
publicado em26/08/2020

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Ela é sócia coordenadora do grupo de prática tributário do Trench, Rossi e Watanabe Advogados e é membro do comitê administrativo do escritório. Numa conversa com LexLatin, Simone Dias Musa falou de modelos de liderança que podem inspirar outras mulheres a buscar cargos na direção dos escritórios brasileiros. A advogada também analisou as mudanças que a reforma tributária pode trazer para o ambiente de negócios do país.

Porque as mulheres ainda não ocuparam seus espaços na direção dos grandes escritórios brasileiros?

Simone Dias Musa: Os escritórios querem mulheres participando da tomada de decisões porque elas são mais colaborativas e criativas, principalmente num ambiente competitivo de uma firma. O percentual de mulheres dentre os sócios seniores ainda é pequeno, você ainda tem uma maioria dos sócios homens que se candidatam ou estão à disposição. Ainda vejo as mulheres um pouco tímidas em se colocar à frente. 

Como é no seu escritório?

Simone Dias Musa: No Trench Rossi trabalhamos com um comitê administrativo sem manager partners, nós somos três sócios administrativos com o mesmo poder decisório, sem hierarquia entre nós.

Já estou no meu segundo mandato desde 2015. A empresa tem um histórico de ter mulheres na liderança. Acho muito importante ter estes modelos, como a Dra. Juliana Viegas, que era uma sócia muito influente na área de propriedade intelectual. Lembro como ela se impunha, a tinha como exemplo quando eu tinha 24, 25 anos e entrei no escritório.

Logo em seguida teve a Claudia Prado que era sócia em fusões e aquisições e participava do comitê administrativo do escritório. Depois ela se tornou sócia administrativa. Mulheres quando veem outras se destacando e com habilidade de conciliar o escritório e as pressões da administração da sociedade, família, filhos e são realizadas acho que incentiva muito outras mulheres que estão na base. 

Faltam hoje modelos de liderança feminina no mercado jurídico brasileiro? 

Simone Dias Musa: Ainda não temos mulheres na liderança em todos os escritórios. Quando tivermos todos vão entender a diferença para um modelo mais colaborativo: a mulher passa maior credibilidade, tem muito menos chance de entrar em atritos e embates, embora possa, claro, não como regra. Escritórios precisam estar prontos para acolher ambições femininas.

É uma certa indisposição com esse mundo masculino, que muitas vezes pode ser tóxico e vir com essa história de preconceito?

Simone Dias Musa: Elas olham e veem um mundo machista e têm receio de serem atacadas. Apesar disso vejo mulheres muito fortes hoje. Trabalho num grupo de liderança feminina do Cesa (Centro de Estudos das Sociedades de Advogados) e fico impressionada com a qualidade e a força, com a garra e determinação das mulheres. Talvez falte aquela certeza de que é possível conciliar vida como um todo e adversidades dos escritórios de advocacia e questões de remuneração sem você ver o sucesso de uma mulher que te antecede. Não que você precise disso para se candidatar, mas acho que ao ver esse modelo dentro do escritório você permeia essa liderança. A ascensão da primeira mulher na administração da sociedade criará automaticamente um modelo para permear a sucessão.

Desde quando o Trench Rossi tem mulheres na liderança do escritório?

Simone Dias Musa: Foi a Claudia Prado, depois Anna Mello e eu. Então temos uns 14 ou 15 anos de liderança feminina no escritório. 

Os escritórios hoje falam muito de diversidade, mas muitas iniciativas são estratégia de marketing para atrair clientes. Como você vê essa questão?

Simone Dias Musa: Marketing pode até existir, mas já há, a meu ver, a consciência de que a diversidade promove o ambiente de negócios. Seja a diversidade de gênero, racial ou religião. Sim, acho que algumas organizações podem fazer isso por uma questão de marketing, o oportunismo sempre vai existir. Por outro lado, vejo hoje pelo menos nos grupos que participo de discussão, nos centros de estudos nas sociedades de advogados e outros grupos  que já passou do marketing e existe uma consciência sobre o benefício.

O Cesa tem um programa que chama "Incluir Direito", onde escritórios de advocacia se uniram para financiar e apoiar estudantes negros em faculdades de primeira linha no Brasil, para que esses estudantes saiam preparados para ocupar a posição de advogados de grandes escritórios. Claro que eles não têm nenhuma obrigação de trabalhar com os escritórios que apoiam o projeto, mas gostaríamos de tê-los conosco. Estamos trabalhando para conseguir ter mais opções e poder ter mais diversidade.


Você é da área de tributos, como vê a discussão da reforma tributária no Congresso?

 

Simone Dias Musa: Estamos vivendo um momento histórico. Trabalho há 25 anos com tributos e adoro essa discussão. O sistema brasileiro sempre foi complexo, com uma tributação ruim, além da má qualidade na arrecadação e na utilização dos impostos. Então para começar estamos falando da reforma de um sistema que é muito ruim.

 

Há 30 anos se discute reforma tributaria no Brasil e há pouca adequação a modelos internacionais. Sempre tivemos um modelo de tributação totalmente diferente de todo mundo. Minha visão é de que precisamos de uma unificação de tributos, sejam eles 5 ou 6, e maior transparência para o contribuinte. 

 

Podemos ter um aumento da carga tributária brusco, porque as empresas de serviços historicamente sempre foram tributadas de uma forma reduzida, principalmente aquelas que podem optar pelo lucro resumido. Não é o caso de grandes bancas de advocacia que já estão no lucro real e, portanto, já pagam, por exemplo, PIS/Cofins a 9,25%. A crítica que se tem hoje é se esse aumento na tributação das pessoas prestadoras de serviço será absorvido pelo consumidor. Isso pode reduzir nossa margem.

 

A reforma provavelmente nos permitirá nos adequar a um ambiente internacional, entrar na OCDE que é uma coisa que o Brasil gostaria muito e que vai passar uma credibilidade, uma segurança no ambiente de negócios para investimentos estrangeiros.

 

Sou favorável à reforma com a criação de um Imposto sobre Valor Agregado (IVA), reforma do Imposto de Renda, mas eu acho que o problema está nos detalhes e os detalhes não estão muito bem explicados, pode onerar os prestadores de serviços e a nossa classe de advogados.

 

Falta clareza por parte dos legisladores que estão cuidando da reforma tributária?

 

Simone Dias Musa: O governo pode ser humilde para acolher propostas daqueles que estão realmente no dia a dia  da prestação do serviço, do agronegócio, de cada setor e entender que não existe hoje uma segurança em relação ao IVA, por exemplo. Quem vai pagar, é o consumidor final? Um dos grandes problemas mundiais do IVA é a dificuldade de se monetizar os excessos de crédito. Será que os exportadores realmente vão conseguir reaver isso do governo?

 

O governo precisa ouvir e tentar não matar a proposta. Se você me perguntar se o Paulo Guedes [ministro da Economia] está indo mal eu acho cedo ainda. Ele foi um pouco tardio, poderia ter trazido essas reformas mais cedo, mas como ele mesmo tem explicado estava extremamente ocupado com a liderança da pandemia e com outras questões que vieram em virtude da Covid-19.

 

Acho que já era para estar em outro patamar, mas é melhor trazer tarde do que não fazer. Sou favorável à implementação das reformas. Sou prestadora de serviços, sócia administrativa de um escritório de advocacia e sinto a possibilidade de aumento da carga tributária.

 

O cliente não vai absorver esse tributo num curto prazo, mas prefiro que o Brasil mude do que continuemos ganhando um pouco mais de dinheiro num curto prazo, mas com um ambiente de negócios pior para as próximas gerações. 


Vocês são um escritório full service e têm uma parceria importante com Baker McKenzie. Como você vê o mercado a partir de agora?

 

Simone Dias Musa: A pandemia nos levou a um mundo totalmente tecnológico. Já sabíamos que iriamos passar de um mundo presencial a um digital. De repente isso aconteceu e os escritórios maiores tem uma capacidade maior de estarem no topo da tecnologia, então essa parte da tecnologia ao meu ver fez uma diferença na pandemia. Vejo a advocacia no futuro com menor folha de pagamento, com menos pessoas e equipes extremamente especializadas para determinados projetos.

 

O que a Simone Musa agrega ao mercado jurídico brasileiro?

 

Simone Dias Musa: Sou otimista em relação ao momento histórico que estamos vivendo. Estamos passando pela possibilidade de ter reformas estruturais importantes que o Brasil precisa. A pandemia trouxe um avanço rumo à digitalização, trabalho remoto, a responsabilização de cada pessoa sobre o seu desempenho e sucesso. Agrego otimismo com relação ao nosso futuro e um pouco de inspiração para comunidade e para o mercado jurídico. 

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